A função social do
carro. Essas pessoas não eram motivadas apenas por sublimes preocupações
sobre o caos do trânsito urbano. O que as movia era principalmente a
compreensão de que não era justo alguém usar sozinho um carro em que cabem quatro
ou cinco pessoas. Sendo assim, se um camaradinha estivesse dirigindo seu carro sozinho
e passasse por um ponto de ônibus e as pessoas no ponto fizessem sinal (assim
como se faz sinal para pegar ônibus), o camaradinha tinha a obrigação de parar
e abrir as portas para os seus irmãos, quero dizer, seus concidadãos. A maioria
dessa bela cidade não achava justo que pessoas ficassem paradas em pé e
submetidas a longas esperas enquanto não chegasse um ônibus. Isso não parecia
justo, pois, enquanto muitos tinham de padecer desse desconforto, outros
poderiam se mover confortavelmente pela cidade em seus carros subutilizados.
*** Nem preciso dizer quão admirável era a coerência dessas
pessoas (a maioria). Elas não paravam no meio do caminho. Elas sempre se
referiam aos companheiros dos tempos passados, que pensavam apenas em função
social de propriedades fundiárias, como seres pusilânimes e incoerentes. Os latifúndios
há muito tempo tinham sido abolidos e a especulação imobiliária não existia
nessa esplêndida polis.
Copyright © 2012 Aguinaldo Pavão - Londrina - PR
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