19 setembro 2012

Coletivópolis

Vou contar pra vocês uma história que eu ouvi. Era uma vez uma cidade em que a maioria das pessoas era feliz. Não se tratava apenas de uma felicidade moralmente neutra. As pessoas - isto é, a maioria -, além de sentirem que seus níveis de bem-estar eram bons, também se sentiam moralmente satisfeitas consigo mesmas. Acreditavam que eram capazes de realizar “na prática” (como alguns diziam) diversas das nobres ideias de uma sociedade ética. Gostavam, sobretudo, da ideia de justiça social. Inspirados nessa ideia genérica, há muito anos tiveram o seguinte pensamento genial. Pensaram que deveriam ser mais consequentes com o princípio da função social da propriedade. A partir disso, instituíram (a maioria das pessoas) uma lei que decretava a função social do carro.


A função social do carro. Essas pessoas não eram motivadas apenas por sublimes preocupações sobre o caos do trânsito urbano. O que as movia era principalmente a compreensão de que não era justo alguém usar sozinho um carro em que cabem quatro ou cinco pessoas. Sendo assim, se um camaradinha estivesse dirigindo seu carro sozinho e passasse por um ponto de ônibus e as pessoas no ponto fizessem sinal (assim como se faz sinal para pegar ônibus), o camaradinha tinha a obrigação de parar e abrir as portas para os seus irmãos, quero dizer, seus concidadãos. A maioria dessa bela cidade não achava justo que pessoas ficassem paradas em pé e submetidas a longas esperas enquanto não chegasse um ônibus. Isso não parecia justo, pois, enquanto muitos tinham de padecer desse desconforto, outros poderiam se mover confortavelmente pela cidade em seus carros subutilizados.

*** Nem preciso dizer quão admirável era a coerência dessas pessoas (a maioria). Elas não paravam no meio do caminho. Elas sempre se referiam aos companheiros dos tempos passados, que pensavam apenas em função social de propriedades fundiárias, como seres pusilânimes e incoerentes. Os latifúndios há muito tempo tinham sido abolidos e a especulação imobiliária não existia nessa esplêndida polis.

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