Dia desses, em sonho, aparece-me uma leitora de Hume e, à queima roupa, me pergunta: “o que você acha do artigo de Hume sobre amor e casamento?” E eu: “Ah, como?” Engasguei-me com a própria saliva. Onde já se viu alguém me fazer uma pergunta dessas, assim, sem os rodeios necessários e justamente sobre algo que não tinha lido, eu que ficava me jactando que “para Hume é assim e assado”. Recebi o castigo que merecia. Fiquei ruborizado, meu querido e amado eu esmagado, e disse: “não acho nada. Certamente Hume não é um bom alimento para os espíritos que desejam saber alguma coisa sobre amor”. A resposta foi forçada, claro. A leitora ficou com piedade de mim e desapareceu do sonho. Na seqüência, surgiu uma multidão de leitores de Hume dizendo que também não tinham lido o artigo, tentando me acalmar alegando que não era nada tão grave. Mas, a partir daí, já não me lembro bem do resto. Os sonhos, vocês sabem, são um tanto desorganizados. O fato é que me acordei tremendo, com uma febre de 40º. Pensei: deve ser esse maldito ensaiozinho. E então fui ler.
Olha, não é exatamente um mingau. Embora altamente dubitável a ideia sobre a inclinação das mulheres pelo desejo de dominar, fato que explicaria a satisfação de algumas que se casam com tolos, Hume defende uma tese interessante sobre a igualdade nas relações de poder dentro do casamento. Agora, sobre o amor, aí sim ele me pareceu fraquinho. Primeiro, faz uma apresentação corrompida da intervenção de Aristófanes no Banquete de Platão. Hume só fala de uma das três esferas, a esfera feminino-masculino, esquecendo as esferas feminino-feminino e masculino-masculino. Mas tudo bem, um historiador ou sociólogo explicaria isso e, evidentemente, embora eu jamais consiga ficar satisfeito com essas explicações, não daria importância, pois esse ponto não tem muita relevância. Hume mesmo inventa uma historinha análoga sobre Amor e Himeneu, que teriam a tarefa de suprir as nefastas conseqüências da antiga separação punitiva entre o masculino e o feminino levada a cabo por Júpiter. Mas essa historinha é meio boba. Himeneu com a Cautela e o Amor com o Prazer. Muito insípida. Também diz pouco sobre o amor.
Hume escreve: “Amor escolheu Prazer como favorito, um conselheiro tão pernicioso quanto o outro [a Cautela] que o impedia de enxergar além da presente satisfação momentânea ou da satisfação da inclinação dominante”. Não fica claro se o Prazer apenas cumpre suas funções de conselheiro ou de dirigente mesmo do Amor. Se for apenas a de conselheiro, todas as decisões e responsabilidades ficariam ao encargo do Amor. Mas Hume diz que o “amor escolheu Prazer como favorito”. Claro que não dá pra levar muito a sério essa fábula, mas o fato é que o amor não escolhe nada (ah, só pra lembrar, Hume tem em mira o amor erótico). E se enfraquecermos o escolher, pensando que talvez Hume quisesse dizer que o amor, naturalmente inclinado ao prazer, o tomou como seu conselheiro? A meu ver, com isso não progrediríamos muito.
O amor não é um sentimento que nos impeça de enxergar além da satisfação momentânea ou dominante. Julien Sorel explica melhor o que é o amor [na verdade, no Tratado, Hume é melhor sobre esse tema]. Sentimento cheio de cálculos, de impurezas (logo, por natureza, não meramente paixão, mas também, curiosamente, razão – ou talvez, como Hume gostaria, uma “paixão indireta”). Quem sabe Hume esteja certo ao colocar a Cautela ao lado de Himineu. Cautela parece algo bem próximo à covardia. Talvez ela combine melhor mesmo com o casamento ou com muitos que se vê por aí (não só casamentos, mas também namoros). Fazendo justiça a Hume, vale observar que a sua ideia de uma reconciliação entre Himeneu e o Amor talvez seja interessante, embora seja uma reconciliação que favoreça Himeneu. Pergunto: se você colocar cautela e prazer lado a lado, de braços e abraços num romance astral, você poderá dizer que tem ainda cautela e prazer? Talvez algum camaradinha dissesse: “olha, é muito legal, pois agora tenho um prazer cauteloso e uma cautela aprazível”. Estranho. Conquanto não tenha citado Hume, Schopenhauer continuaria dizendo - ele que sabia 47 vezes mais sobre o assunto que Hume: “não tenho predecessores nem para me valer, nem para refutar”. Bom, num brevíssimo ensaio (de cinco páginas) talvez não se possa esperar muito. Mas quando se trata de Hume, uma página já teria de ser suficiente para sentirmos não estar diante de um comum filho da Terra.
[Gisele quis saber se era verdade a história do sonho. Sim, era, é. E a leitora até tinha nome. Lamento ter consultado meu advogado sobre o assunto. Ele disse que era melhor não mencionar o nomezinho da leitora].
sua poesia
3 meses atrás


2 comentários:
Ilustre professor, permita dizer que o senhor comete, pelo menos, dois erros:
1) afirma que o amor nada escolhe, mas que envolve a razão. Esse pensamento é incoerente
2) refere-se à ideia de Hume sobre o sentido de paixões indiretas. Porém, confunde bisonhamente essa noção com um tal misto de paixão e razão.
Seria uma atitude responsável se o senhor se dignasse a corrigir tais erros.
Atenciosamente.
Antônio Carlos
Ilustre Sr. Antonio Evaristo (para mim, confesso, um anônimo, pois essas duas palavras não conferem ao nobre leitor do blog (fato que muito me honra) qualquer identidade distinta de um anônimo – alguém que se diz “Antonio Evaristo” e assina “Antonio Carlos” – coragem, sapientíssimo senhor).
Mas vamos aos pontos.
Ah, antes. O Ilustre afirma que cometi pelo menos dois erros. Antecipadamente, peço, caso o Ilustre tenha tempo e paciência, que me indique os outros.
(i) Sobre o amor nada escolher. O Ilustre vê incoerência entre essa ideia e a ideia de que o amor envolve também razão. Se o Ilustre estiver certo, quando digo que não escolhi sentir medo de um leão que aparece na minha frente com famintas e hostis intenções em relação a mim, não poderei dizer que agi com razão quando dei no pé, quando em disparada tentei encontrar um lugar seguro? É isso, oh Ilustre Antonio Evaristo? (ou Antonio Carlos? como prefere ser chamado?). Retomando, caso as coisas sejam assim, e caso o Sr. me explique que tem de ser assim mesmo, eu ficaria muito agradecido e, por certo, revisaria o texto, colocando a observação: cometi, na primeira versão o erro X apontando pelo Ilustre Antonio Evaristo Carlos ou Antonio Carlos Evaristo. Talvez uma homenagem pequena, mas para quem, como nós (suponho) temos interesse na verdade (lato sensu) o suficiente.
(ii) A respeito de sua segunda réplica, oh Ilustre, cabe notar que eu NÃO disse que Hume entenderia que o amor é, por natureza, paixão e razão. Essa foi a forma de expressar o que eu penso. O que disse foi que Hume entenderia esse meu pensamento em outros termos (e certamente não apenas em outros termos, mas também com uma carga conceitual distinta) chamando-o de “paixão indireta”. Aqui, porém, devo reconhecer que o Ilustre não desperdiçou a flecha. Não acho que tenha acertado nenhum órgão vital, mas atingiu o corpo, talvez o pé. Preciso admitir, senti alguma dor. Sendo assim, agradeço a oportunidade de ter feito esse esclarecimento. De todo modo, estou disposto a voltar a arena para fazer uma discussão específica com o Ilustre sobre paixões indiretas em Hume e mostrar que a legitimidade na aproximação que faço e que a bisonhice está em não perceber isso.
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