Artigo publicado no Jornal de Londrina de hoje.
Abaixo, a versão ampliada do texto.
Criticar alguém devido à sua deficiência estética, ou por causa de supostos elementos morais desabonadores pode ter algum sentido. Trata-se um ataque ao homem, uma desqualificação de seus atributos estéticos e éticos. A pessoa cheira mal (isso deve ser estético, não?). A pessoa é preguiçosa (ético, certo?). Bem, a meu ver, essa forma de atacar tem pouca utilidade para um debate mais conseqüente. O que é importante numa discussão - admitindo-se que se queira mesmo discutir e não apenas desabafar preferências estéticas apreciações morais - são as idéias.
Uma pessoa pode estar cometendo uma falta moral e então você pode censurá-la moralmente. Isso é uma coisa. Uma pessoa pode estar mal vestida. Você a critica dizendo que a roupa não caiu bem, que é feia ou alguma outra observação negativa sobre sua aparência física. São críticas de fôlego curto. Com efeito, se a falta moral é comedida contra o bom senso ético das pessoas, facilmente se reconhecerá a procedência. Fim de conversa (ou então chamamos um reformador moral que sensibilize os maus e os converta ao caminho redentor do bem). Vale observar que, nesse caso, não haverá propriamente a figura de um interlocutor, pois a desqualificação moral simplesmente impede a possibilidade do diálogo. Não há o que discutir com pessoas assim tão más. Seria até possível, embora altamente excêntrico, dizer que também não dá para discutir com pessoas tão feias, tão mal vestidas, tão mal cheirosas. É, isso é possível. Acontece que discutir para valer mesmo implica reconhecer que o outro tem idéias. Assim, a crítica produtiva será não às suas supostas faltas morais e mau gosto estético. A crítica será feita motivada pela identificação de deficiências intelectuais na defesa de alguma ideia.
Os estudantes da USP, a que se refere o professor Wilmar Marçal em artigo publicado ontem no JL, não possuíam em suas cabeças, segundo ele muito mal apresentadas, nenhuma ideia? Duvido. O professor mesmo acredita que tinham. Mas é sumário sobre isso, é apenas taxativo, não as discute. Eu gostaria, aqui, de me referir a uma delas. A ideia de que é moralmente ilegítimo a policia agir coercitivamente contra quem consome drogas. Acho que esse é o ponto mais interessante. Não me preocupam tanto os meios usados pelos estudantes. Isso é coisa fácil de ser reconhecida e atacada. Agora, o que serviu de motivação, provavelmente não a única motivação, mas uma motivação claramente presente e que não pode ser negligenciada, é que os estudantes consideraram ilegítima a ação da polícia contra consumidores de maconha. Ora, o consumo da maconha é um tema discutido de modo razoável e sem desabafos histriônicos em qualquer lugar civilizado do mundo. Acredito que a Academia deve discutir isso. É ilegítimo que o aparato policial do Estado se ocupe com crimes sem vítimas? Sim, afinal fumar uma maconha não produz vítima. E, para deixar bem claro, a ideia de que só há crime se há vítima baseia-se no fato de que os prejuízos que o individuo causa a si mesmo não podem ser considerados crimes, pois a ideia de vítima é de alguém que sofre um dano causado por outrem, não por si mesmo. É muito curioso pensarmos que os acontecimentos na USP dizem respeito apenas a aromas, barbas, preguiça e idéias ultrapassadas (mas não discutidas). A defesa da não criminalização do uso de maconha não é uma ideia de esquerdistas apenas. Eu sou politicamente hostil ao pensamento de esquerda e completamente favorável à mudança na legislação sobre esse tema. O episódio dos estudantes da USP ofereceu uma boa oportunidade para se discutir se cabe moralmente impor alguma espécie de sanção a quem está colocando para dentro de seu corpo certa substância. Por que desperdiçarmos essa oportunidade com meros desabafos?
(*) No texto publicado onde se lê legítimo (último parágrafo) é "ilegítimo".
A educação como mercadoria
20 horas atrás
6 comentários:
Professor, concordo plenamente. Veja, não sou um liberal por completo (atribuo ao Estado certas obrigações, como a educação; enfim, assunto para outra hora...) e também julgo rasteiros esses argumentos do ex-reitor (a “melhor” frase do artigo é "O verdadeiro estudante brasileiro tem família, princípios, disciplina, ideias e ideais") e de boa parte da imprensa. Os alunos da USP têm sido taxados de playboys, sujos, velhos, maconheiros e burros. Para mim nenhum desses adjetivos é motivo para desqualificá-los. Até mesmo um burro pode ter seu lampejo genial e, aproveitando-se dele, criar um bom argumento a ser batido. Os problemas são outros e parece que ninguém está disposto a começar o debate... Abraço, Douglas.
Muito bom o texto, apenas algo que eu penso (e não sei se está realmente em desacordo em alguma parte do que disse) é que se determinada atitude é crime fora da universidade, não deixa de ser apenas por estar dentro. Entretanto, o ponto abordado é justamente a legitimidade (ou ilegitimidade) de se tomar como criminoso o ato de fumar uma maconhinha. Defendendo ou não que isso seja crime, é natural que uma discussão a respeito disso (a nível de alteração da lei mesmo) seja feita.
Enfim, deixo meu parecer como o mais convicto talvez novamente.
Abraço, Everton.
Oi professor, Concordo com seu alerta de que deveríamos prestar mais atenção às idéias que estão em jogo do que aos desabafos enfurecidos e desqualificações inadequadas que tal episódio provocou, mas é justamente esse o ponto falho nessa história toda. Gerou-se muito barulho e pouco debate de idéias.
É muito fácil ser atraída pelas tantas manifestações exageradas e emocionais de reprovação que saíram na mídia e perder totalmente de vista que sequer haja pontos legítimos nessa ação. A ocupação virou a questão e o debate (houve debate?) se concentrou nisso. No final, como forma de chamar atenção para uma determinada causa, opinião, reivindicação, protesto, ou sei-lá-o-quê, simplesmente não funcionou...
Quem vai discutir a opinião daqueles estudantes a respeito da pretensão a liberdade para o consumo de maconha com um episódio desses? Ou da legitimidade da ação da polícia militar no campus? A mídia fez um bom trabalho contra eles... Eu mesma nem me interessei pelo que eles estavam reivindicando, tamanha falta de simpatia que o episódio gerou em mim... Mas seu alerta me tirou dessa posição medíocre e me fez ver que: é, talvez eles tenham lá seus pontos... Então, após o meu pequeno desabafo (se até o ex-reitor desabafou, eu também posso, né?) volto-me para os pontos que possivelmente estariam em questão.
Pois bem, quanto aos maconheiros, acho que esse tema gera excelente debate e eu mesma sou bem liberal nesse ponto: acho que cada um pode fazer o que quiser desde que não prejudique o outro. Gostei muito do ponto e esclarecimentos que vc levantou sobre a ausência de vítimas. Importante para iluminar a questão. E sim, a universidade tem que participar de forma ativa dessa discussão. Mas acho que esse debate ainda vai muito longe e argumentos de opositores tais como fomento ao tráfico, porta de entrada para outras drogas, opinião da maioria e onerar a saúde pública são tão ridículos que nem merecem meu tempo. A questão deveria se centrar nas liberdades individuais. Eu preciso que o governo me diga o que posso ou não fazer com meu próprio corpo? Preciso do governo pra me proteger de mim mesma? Eu pessoalmente acho que não. Se eu quiser, peço ajuda, senão, deixe-me escolher sozinha...
Agora, quanto à legitimidade de a polícia reprimir os crimes sem vítima, aí professor, há que se separar de um lado a polícia e de outro as leis. O fato é que hoje é crime consumir maconha no Brasil e o policial não tem nada que achar a respeito, exceto talvez (pra gastar um pouco dos meus pobres conhecimentos de Kant) no uso de sua razão pública, mas não no exercício de sua função e, portanto no uso de sua razão privada. Não dá pra querer, em tese, que a polícia faça concessões à lei para os estudantes universitários. Não é por aí. Só quis esclarecer esse ponto, para que a questão se concentre na legislação e não na figura da polícia.
E quanto à presença em si da polícia no campus... não sei bem o que acho... minha opinião oscila... Acho que o ambiente universitário não poderia pretender estar acima da lei repudiando a presença da polícia e é obviamente inválido contra-argumentar com o despreparo das tropas. Por outro lado, é fato a inadequação dos policiais no campus, que por sua natureza e história pressupõe liberdades e ativismo político, coisas bem diferentes dos crimes comuns para os quais a polícia está, supostamente, mais preparada. Sei também que, em vários países, as universidades têm essa prerrogativa (estarem a salvo da polícia comum), mas confesso que não sei defender essa posição. Alguém se habilita a apresentar argumentos a favor dessa tese? Gostaria de ouvi-los e quem sabe ampliar minhas reflexões...
Por fim, quero dizer que valeu a provocação. Vamos refletir sobre os pontos que interessam e deixar as críticas histéricas de lado.
Abçs,
Douglas.
Certamente você já ter visto pela Internet centenas de camaradinhas que não conseguem pensar de outro a não ser arrolando supostos defeitos morais naqueles que pensam diferentemente deles. Uma lástima. Não é um vício da esquerda. Muitos liberais também fazem isso. Às vezes, eu penso que eles querem que a nós busquemos informações sobre suas vidas a fim discutirmos publicamente quem é o mais puro, o mais santo, o mais fiel a Deus, o mais incorruptível, o que toma menos cerveja, ou o que é abstêmio e por aí vai. Ora, que interesse tem isso numa discussão pública de ideias? Para eles, a ideia está errada por que o seu defensor é esquerdista ou por que faz apologia do aborto, ou talvez por que o defensor é cabeludo e fuma maconha. Deplorável. Abraço.
Everton.
Concordo. Um movimento consequente, que me parece não existir ainda, deve defender algo que considera moralmente legítimo e o que é moralmente legítimo não tem os limites de um campus universitário. Abraço.
Eliza.
Você tem razão sobre a necessidade de separarmos o policial (o homem) das leis. Devemos, pois, distinguir entre (a) ação da polícia como aparato do Estado e (a) ações de policiais, isto é, de homens que age sob ordens. Eu me referi no artiguinho ao primeiro caso.
Mas ainda assim, indo um pouco além, a resistência à ação ilegítima da polícia (precisaríamos de uma discussão especifica sobre quais são os casos para o exercício da legítima resistência (não aramada, pois a discussão nossa pode se contentar com resistência não armada), mas aqui me contento com a idéia geral de que ações que atentam contra a tua liberdade de fazer uso do teu corpo como você bem entender, desde que não prejudique a liberdade de outrem, tornam legítima moralmente a resistência (pois representam agressão ilegítima ao teu direito, conferindo a você o direito de se defender) . E não a vejo essa resistência como uma exigência moral, mas como algo que, sendo moralmente permissível, pode ou não ser exercito a depender da avaliação prudencial das circunstâncias.
Se os estudantes defendem (vamos admitir que alguém possa confusamente pensar assim), que a polícia deve fazer concessões a eles em virtude de serem universitários, eles então fazem a defesa de algo que não merece crédito algum num debate sério. Agora, é possível defender que a polícia mesmo estando no Campus (eu sou contra, mas vamos admitir isso), como ia dizendo, mesmo que a polícia esteja no campus, ela pode não pretender agir se avistar um aluno fumando maconha. Entendo que essa não pode ser uma decisão do policial. A decisão teria de vir de cima. De todo modo, isso é para mim um ponto secundário. Acho que nós, que estudamos filosofia, podemos contribuir melhor num debate público discutindo princípios, como você bem assinala no teu comentário.
Ah, eu falei acima que sou contra a polícia no campus, mas não sou por principio contra. Acho que seria melhor em termos comparativos e consequencialistas que a polícia fosse universitária e não militar, mas também, como você, não tenho uma posição definitiva. Apenas tendo a rejeitar a ideia.
Abraço.
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