31 Outubro 2011

Eu e a saúde dos outros

No Facebook, há uma turma pregando em defesa da tese de que Lula deveria tratar seu câncer na rede pública de saúde. Há outra turma que vê nisso um equívoco com raízes morais. Digamos que essa seja uma das formas aceitáveis de apresentar as duas turmas. A primeira estaria mesmo incorrendo em falta moral? Tenho dúvidas.
Em geral, me preocupo com a saúde das pessoas, mas das pessoas próximas a mim, pais, irmãos, amigos, alguns parentes. Se alguém vem e me diz: "olha, o Chávez está com câncer", eu não dou a mínima e até, confesso, sinto-me bem em saber que o mundo em breve (provavelmente) estará livre de uma pessoa que, a meu ver, só traz mal com sua tendência claramente liberticida. Isso é moralmente errado?
Seria moralmente errado você defender sua liberdade e, nessa defesa, matar seu agressor? Certamente, não. Acho que, aqui, a maioria das pessoas sensatas concordaria. Claro que rapidamente tentariam mostrar a diferença entre os casos. Em um, há um desejo pela morte de outrem. No segundo, não se deseja exatamente a morte de outrem, mas sim a liberdade, sendo a morte do adversário uma conseqüência não diretamente visada. Sim, pode-se pensar que num caso você mata um sujeito que considera culpado e no outro você deseja a morte de uma pessoa inocente. Mas Chávez não me parece alguém inocente. Ah, sim, estão me falando aqui na fila, que “é pecado desejar a morte ou a infelicidade de outro ser humano”. Mas, não dou a mínima pra noção de pecado (e não considero essa palavrinha sinônima de falta moral, para mim ela só faz sentido dentro de uma perspectiva religiosa, e a moral dentro de uma perspectiva religiosa sobrevive no máximo dois segundos).
Será que todos os seres humanos merecem viver, merecem gozar de bem-estar? Pergunto isso em termos morais. Se eu fosse um ser capaz de distribuir punições aos seres humanos que vivem nesse meigo planeta e que me parecem ser imorais, eu não acabaria transformando esse mundo num mundo ainda pior do que pensava ser Schopenhauer? Seguramente. Muito ranger de dentes, muitas lamentações e gemidos de dores dilacerantes. E ainda por cima teria de, ou poupar pessoas queridas, ou puni-las e ficaria triste com isso, muito triste com isso (saibam disso meus queridos amigos). Mas tem algo ainda pior, se aplicasse de modo imparcial essas punições provavelmente teria de cometer suicídio. Bah, não é uma boa idéia.
Incomoda-me pensar que há algo de moralmente errado em desejar a morte de alguém. Muito mais perturbador é pensar que há algo de errado em simplesmente ser indiferente e dizer: “dane-se”. Por que seria errado moralmente acalentar esses sentimentos? Eles não se constituem em crimes. São, talvez, faltas morais (éticas como provavelmente gostaria um leitor amoroso da Doutrina da Virtude). Acontece que, se eu não tivesse esses maus sentimentos, vamos admitir que sejam maus, eu não me reconheceria como um ser humano. Seria uma espécie de besta angelical, desejando felicidade para todos os mamíferos humanos. Eu não sou nada angelical nesse ponto. Eu sou indiferente ao sofrimento de muitas pessoas e gostaria que muitas que ainda respiram fossem para o inferno (e não tenho nenhum plano pessoal de me tornar melhor tentando extirpar de mim esses sentimentos). Mas com Lula, curiosamente, não sinto isso. Não consigo desejar mal a ele. O meu ponto é que não acho que esse sentimento tenha algum mérito moral.

1 comentários:

carina paccola disse...

Achei seu post engraçado. Fico pensando que eu seria poupada se vc tivesse o poder de distribuir punições (rs). NO vestibular, tinha uma questão de Kant que me fez lembrar de você - e me fez pensar que a única alternativa que falava de autonomia seria a correta. Mas, sem seguir minha intuição e sem entender nada de filosofia, marquei outra e errei. A correta era mesmo a da autonomia