Brandon percebe que o amor, por si mesmo, não pode ser a medida para suas ações. E ele se torna amável aos olhos de Marianne justamente por isso. Ele é um personagem que revela a asneira dita pelo Bigode segundo a qual “o que se faz por amor sempre acontece além do bem e do mal”. Mais uma das bobagens bigodianas evidenciada pelo Coronel Brandon ─ o personagem mais interessante de Razão e Sensibilidade.
Hoje somos lamentavelmente mais condescendentes em nossas apreciações morais, ao menos é essa a impressão que tenho. É claro que a paixão amorosa é um sentimento impuro que causa auto-enganos de modo desconcertante, mas parece que nosso egoísmo sentimental, sim, nosso egoísmo no amor nos leva facilmente a perdoar as falhas no caráter do ser amado. Lembremos de Willoughby. Marianne, depois de Elinor relatar a ela que as intenções de Willoughby não continham a maldade até então suposta, é firme em avaliar que tal homem não lhe poderia servir. E não prejudicaria meu ponto a alegação de que ela pensa que tal homem não a tornaria feliz, porque a própria ideia de felicidade de Marianne traz consigo elementos morais. Sua felicidade, com respeito à pessoa amada, não se resume a estar junto dela (nos amaremos e seremos felizes para sempre. Oh...). Não, para ela a felicidade não implica apenas compartilhar a vida com uma pessoa que se ama. A felicidade envolve admirar o caráter da pessoa amada. Ora, parece-me fácil admitir que podemos amar quem não merece ser amado. E podemos facilmente nos auto-enganar e ficarmos com quem não merece nosso amor. Podemos pensar: puxa, ela me atrai tanto, sua beleza é irresistível, ela diz me amar também, ela apresentou suas escusas, por que não perdoá-la e lhe dar uma chance novamente? Marianne não quer dar chance. 

Ela é bem novinha, 17 anos, mas sabe muito mais do que as presunçosas garotas e senhoras de hoje em dia, que um homem é o que é. Que a natureza moral de uma pessoa tem raízes profundas que não são extirpadas com retóricas de arrependimento e autopiedade moral. É possível que as pessoas mudem (moralmente) de comportamento. Sim, acho que ela poderia concordar com essa ideia. Mas há uma ideia melhor: não aceitarmos como parceiros da aventura amorosa pessoas que deram sinais de deficiência moral. Hoje, eu, você, nós, em geral, somos moles. Ah, perguntamos: por que, afinal, sermos tão duros?
Eu prefiro os romances de Jane Austen à vida real.

8 comentários:
Caro professor Aguinaldo
sempre admirei a retidão dos heróis de Jane Austen. Tomei a liberdade de mencionar em meu blog, Jane Austen em Português, seu artigo:
Amor e admiração em Jane
Austen
abs, raquel
Belo texto, Aguinaldo! Para mim, o amor está necessariamente vinculado à admiração moral, mas eu não estou certa de que eu seria uma exceção. Na verdade, eu acho que as outras pessoas são mais condescentes com as falhas de caráter de quem supostamente amam, porque o interesse delas é por uma relação qualquer, e não pela pessoa supostamente amada em si. Quem vive bem no singular torna-se sempre mais exigente na escolha de um parceiro fixo, se é que um dia vão querer um ;-)
beijos
Andrea
Gostei do texto, também me pego pensando na firmeza moral dos personagens de Austen. Quanto mais honestos eles são, mais exigem da pessoa amada que também o seja. Não tem essa historinha de “ah, tudo bem que ela [a pessoa amada] não é flor que se cheire, mas ela pode mudar seu caráter se me amar de verdade”. Não, geralmente s tipos humanos de Jane Austen se associam por afinidade de caráter. Interesseiros com interesseiros, fúteis com fúteis etc [vide casal Elton, Lucy Steele e Robert Ferrars, Lydia e Wickham etc].
Oi Professor.
O sentimento do amor é algo que suplanta qualquer explicação científica ou filosófica, pelo fato de fugir ao controle do indivíduo, amar ou não.Algo pertencente ao campo metafísico.Assim sendo, corremos o risco de nos aventurarmos com pessoas de moral duvidosa.Mas existe uma saída racional:1) evitar ao máximo sentimentos profundos; 2)caso ocorram, fazer um intenso exercício mental no sentido de extirpá-los.
Ah, amor é tão supervaloriazado. Só consegui amar uma pessoa até hoje, não entendo como existe pessoas que "amam e desamam"...
O velho bigode! Já que você gasta o tempo mencionando ele, me responda:
Fora o seu gosto literário e opinião pessoal sem falar da frase: Ele é um personagem que revela a asneira dita pelo Bigode segundo a qual “o que se faz por amor sempre acontece além do bem e do mal”. Mais uma das bobagens bigodianas.Qual o argumento que sustenta ser bobagem o que o autor diz?
Você poderia dedicar mais um tempinho lendo o bigode e colocando cada passagem do autor e explicando de maneira consistente as “bobagens”. Veja bem, um post só de “asneiras” para distrair.
Espero que se dedique a provocação, rs.
Abraço e tudo de bom, mesmo diante do pedido.
Oi Renata.
Obrigado pela visita e comentário. O meu objetivo foi justamente mostrar que Coronel Brandon está certo em sua compreensão do amor. Logo, o senhor Bigode está errado. Eis aí “o meu argumento”. A refutação cabe a quem discordar da compreensão de Brandon. O que o senhor Bigode diz é dito de modo bigodiano mesmo, isto é, aforismaticamente, sumariamente, dogmaticamente. Neste post, em nenhum momento tive a intenção colocar cada passagem do autor e explicar “de maneira consistente suas bobagens.” Minha intenção foi criticar uma declaração dele, ou seja, apenas escolhi uma das bobagens dele pertinente ao ponto. Agora o ônus é de quem quiser defendê-lo.
Abraço.
Olá Aguinaldo.
Obrigado por responder, infelizmente não posso defender o bigode pq não li suas obras, no presente momento eu estou um pouco ocupada com o tcc, quem sabe no futuro.
Abraço
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