Qualquer vício mata, mas a bebida alcoólica, por ser lícita, é o pior dos vícios. Podem me chamar de "quadrado", mas para mim o lema é: vício zero. Para que serve a bebida alcoólica? Prejudica a saúde, destrói a família, deturpa a mente, provoca acidentes no trânsito, consome dinheiro ganho com suor! O prazer e a euforia que provocam são momentâneos, mas nada têm de prazer e alegria verdadeiros.
Claro que considero basicamente tudo que está contido nessas palavras um equívoco. As drogas servem justamente à satisfação de prazeres momentâneos. O próprio autor responde. E seu lema deve valer para ele mesmo, não para os outros. Quem tem direito a coagir alguém a não usar drogas? Nem Estado, nem sociedade, nem indivíduos isolados têm esse direito. Ninguém tem direito sobre o corpo de outrem. Somente um positivismo jurídico de 2 mil réis poderia ser usado aqui, mas seria ocioso para o meu ponto.
Bem, o que me chamou atenção foi a noção de prazeres verdadeiros. Lembrei-me de Platão. No Filebo, Sócrates advoga a tese de que, assim como existem “temores verdadeiros ou falsos, expectativas verdadeiras ou não verdadeiras, e opiniões verdadeiras ou falsas”, existem também prazeres falsos. Isso leva Protarco a protestar imediatamente, alegando que se pode conceder a falsidade das opiniões, mas não o resto. De fato, a noção de prazer falso aparentemente é ininteligível. Como decidir se um prazer é verdadeiro ou falso? Como o estado subjetivo de alguém que sente prazer poderia ser enganoso a essa mesma pessoa que o sente? Eu posso me enganar ao sustentar uma opinião, vindo a reconhecê-la como falsa, mas não posso pensar que sinto prazer sem senti-lo. Ou seja, quando sinto prazer não posso me enganar que sinto prazer. Até poderia naturalmente dizer a alguém que sinto prazer quando não sinto, mas nesse caso estaria simplesmente mentindo, o que não serviria para demonstrar a existência de falsos prazeres. Tudo bem que um prazer possa se fundar sobre uma falsa opinião, mas disso não se segue, conforme protesto de Protarco, que ele seja falso. Suponha-se que eu acredite ser amado por alguém e sinta prazer por isso. Admita-se ainda que, na verdade, este alguém não me ame; que eu simplesmente esteja enganado. Mas mesmo com uma falsa crença, eu não deixarei de sentir prazer, pois essa crença, que não sei ser na verdade falsa, me apraz.
Alguém poderia pensar que para Platão os prazeres falsos não seriam realmente prazeres. Mas não é exatamente isso que Sócrates quer dizer. Ele não esta sustentando que os prazeres falsos não são reais. Trata-se apenas de atribuir-lhes falsidade
Sócrates - E com respeito à opinião, quer seja verdadeira quer seja falsa, de qualquer forma não deixará de ser opinião. Protarco - É evidente. Sócrates - O mesmo passa com a sensação de prazer: falsa ou verdadeira, jamais virá a perder-se, nisso, precisamente, de ser sensação de prazer.
Quer dizer, à semelhança de falsas opiniões, que de modo algum se pensa não serem algo que existe realmente, ainda que falsas, também os prazeres podem ser ditos falsos, conquanto existentes. Portanto, a sensação de prazer, seja falsa ou verdadeira, jamais deixa de ser uma sensação de prazer. Nesse sentido, ela sempre é real. Desse modo, um prazer falso não seria como um dólar falso que não é um dólar. Em suma, os prazeres falsos são realmente prazeres, só que, por surgirem de estimativas equivocadas de uma situação presente, passada ou futura, merecem também, a exemplo das opiniões, o qualificativo de falsidade.
Mas há um problema nesse argumento. É questionável a analogia entre a opinião e prazer. Podemos dizer que uma opinião é falsa porque não corresponde à verdade. Mas afigura-se, no mínimo, uma reivindicação curiosa querer que julguemos o prazer em relação à verdade, assim como fazemos com a opinião. Isso implica uma assimilação duvidosa de um estado subjetivo aos padrões de avaliação cognitiva.
Um comentário:
Neste exemplo.
Suponha-se que eu acredite ser amado por alguém e sinta prazer por isso. Admita-se ainda que, na verdade, este alguém não me ame; que eu simplesmente esteja enganado.
Mas mesmo com uma falsa crença, eu não deixarei de sentir prazer, pois essa crença, que não sei ser na verdade falsa, me apraz.
O sexo neste caso consolida o prazer. Ou se por exemplo nao haver ato sexual, pode ser prazer falso caso afirme a primeira.
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