O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) propõe uma emenda ao artigo 6º da Constituição Federal. Segundo a PEC de sua autoria, o artigo 6º passaria a vigorar com a seguinte redação: “Art. 6º São direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”. A meu ver, a proposta é um equívoco. A incorreção da proposta se prende a dois defeitos: é inócua e assume pressupostos paternalistas.
Por que a considero inócua? Porque, rigorosamente, o direito à busca da felicidade é garantido simplesmente evitando-se os impedimentos à liberdade dos indivíduos de perseguirem esse fim. A Constituição brasileira, em termos gerais, não estabelece de modo claro nenhum óbice à busca da felicidade. Se isso é verdade, então todos têm direito à busca da felicidade. Com efeito, se ninguém pode legitimamente me impedir de escolher para qual curso devo prestar vestibular, tenho o direito de escolher o curso que quiser. A Constituição não precisa dizer que todos têm o direito de escolherem seu futuro profissional. Se não há regra que me proíba de buscar determinado fim, então tenho o direito (permissão) de buscar esse fim. Uma Constituição deveria ser poupada de meras inflações retóricas.
O outro equívoco é mais interessante, haja vista se tratar de uma compreensão paternalista, infelizmente dominante no Brasil. Refiro-me ao entendimento de que cabe ao Estado prover as condições que tornam um indivíduo feliz, ou ao menos oferecer-lhe provisões mínimas para que ele possa alcançar o bem-estar. Ora, toda vez que o Estado procura realizar esse desiderato alguém, que não o Estado, terá de pagar a conta. Logo, é a liberdade dos indivíduos disporem como quiserem os frutos de seus trabalhos que é atingida. Se é necessário que um indivíduo X tenha o seu “direito social” à alimentação garantido, e supondo que esse indivíduo X não tenha condições de satisfazer sua fome por meios próprios, o Estado agirá tirando coercitivamente recursos dos indivíduos Y e Z a fim de que X possa estar em condições de buscar a sua felicidade. Mas por que o Estado deveria entrar nesse campo? Por que o Estado teria de ser o pai provedor? Por quê? Não seria mais razoável considerarmos apenas moralmente exigível a ajuda aos necessitados? Quero dizer, não seria mais razoável entendermos que indivíduos devem, por autocoerção e não por coerção externa, contribuírem com o bem-estar alheio? O Estado tem o direito de coagir indivíduos a serem solidários? Parece-me que não. É evidente que minha pergunta se refere à legitimidade do direito e não à sua mera existência positiva.
Minha opinião é clara sobre esse assunto e segue a tese de Kant. “Ninguém pode me constranger a ser feliz à sua maneira (como ele concebe o bem-estar dos outros homens), mas a cada um é permitido buscar sua felicidade pela via que lhe parecer boa, contanto que não cause dano à liberdade dos outros (isto é, ao direito de outrem) aspirarem a um fim semelhante, e que pode coexistir com a liberdade de cada um, segundo uma lei universal possível”. Portanto, há que se defender sim o direito à busca de felicidade, mas não pensar que esse direito tenha de estar escrito na Constituição e muito menos que o Estado deva, de algum modo, cuidar desse assunto. O Estado apenas deve impedir que indivíduos se coloquem como obstáculos à busca da felicidade alheia. E, bem entendido, trata-se de um único obstáculo possível: causar danos à liberdade, sua e dos demais. Que ninguém seja aviltado em sua dignidade moral, isto é, em sua condição de ser livre e responsável. E a busca da felicidade? Que cada um busque a felicidade segundo sua compreensão particular de felicidade, mas não impeça os outros de fazerem o mesmo. Logo, que se preocupe apenas com a liberdade dos outros. E se a felicidade dos outros for sua preocupação que seja uma preocupação moral, e não uma preocupação juridicamente imposta.
A proposta do senador me fez lembrar do filme “À procura da felicidade” (The Pursuit of Happyness, EUA, 2006). O filme conta um período da vida de Chris Garner (Will Smith). A vida de Garner vai de mal a pior: suas vendas de máquinas que fazem exames semelhantes às de raio X não emplacam. Sua mulher o abandona. Ele precisa cuidar sozinho de seu filho. Sem dinheiro e cheio de dívidas, é despejado. No fundo do poço, chega a dormir com o filho num banheiro de estação de metrô. Mas ele sabe que há um caminho: confiar em si mesmo e lutar para conseguir a vaga de corretor de ações. Chris Garner não reclama da sociedade injusta, não reclama do Estado o atendimento a supostos direitos sociais. Um belo filme! Provavelmente Cristovam Buarque deve ter assistido ao filme. Todavia, o senador, que gosta tanto de falar em coisas do coração versus coisas do cérebro, parece não ter se sensibilizado com a mensagem da película.
* artigo publicado na edição de hoje da Folha de Londrina.
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6 comentários:
Olá Amigo Aguinaldo!
A sua reflexão é a respeito de um tema que merece atenção. Penso que o mérito da proposição do Senador Cristóvão Buarque está em provocar reflexões sobre o tema. Por diversas razões, entre as quais, a científica, este tema deixou de ser tratado com a profundidade que ele merece. Tem um campo do conhecimento, chamando Psicologia Positiva que enfatiza a importância de tratar cientificamente o tema da felicidade.
No que tange ao papel do estado penso que o paternalismo deve ser evitado, os cidadãos devem perceber que precisam se movimentar, respeitando regras, em direção aos seus desejos.
Saudações,
professor eu tenho certa dificuldade em aceitar essa ideia de que basta não impor obstaculos pra vida de outra pessoa para que essa alcance por si mesma aquilo de que necessita.
Imagine que se todos os proprietarios de terras que cultivam alimentos e criam animais resolvessem deixar de produzir mais do que aquilo que eles proprios precisam comer, não estariam colocando nenhum obstaculo para a vida de ninguem e mesmo assim estou de que em consequencia disso muitos(todos?)morreriam de fome.
essa poderia ser dita uma ação moral?
Vanderson.
Pode me dizer onde se encontra a idéia de “que basta não impor obstáculos para vida de outra pessoa para que essa alcance por si mesma aquilo de que necessita”?
A meu ver, claro está que deixar de produzir alimentos jamais pode ser considerado imoral. Eu não consigo entender como se poderia justificar a existência de um dever moral de produzir alimentos para outrem.
professor
Tomo algumas interpretações que fiz de Thomas Hobbes no que se refere a propriedade, penso que se for verdade que existe uma lei natural que leva o homem a buscar sua preservação e se existe um direito natural que homem tem de buscar os meios necessarios pra essa preservação, então quando um individuo se proclama proprietario de uma terra, esta ao mesmo tempo tirando o direito que outro individuo teria de utilizar-se da mesma terra para nela cultivar os alimentos de que precisa, e se por caso esse primeiro individuo escolhe produzir alimentos somente para o proprio sustento estará tirando do segundo todas os meios possiveis pra que esse preserve a propria vida, assim sendo a preservação uma lei, seria estranho esperar que o segundo individuo nessas circusntancias não se utilizasse da violência para tomar do primeiro algumas terras ou para roubar os frutos que o primeiro individuo cultivou.
Penso portanto que aqueles homens que se denominam proprietarios de terras estão acarretados do dever de produzir alimentos pra todos se quiserem manter de modo pacifico suas propriedades.
sobre o primeiro ponto, entendi que a noção do liberdade que o senhor defende fosse a de não impor obstaculos pra outrem, presumi de maneira errada que o senhor acreditasse que um homem a que não se impõe nenhum obstaculo pudesse alcançar sozinho os meios necessarios pra propria preservação, meu objetivo com o exemplo era tentar demonstrar que aqueles que tem propriedades tem deveres pra com aqueles que permitem esses de terem propriedades, a omissão desses deveres significa impor obstaculos a outrem e portanto seria uma especie de "omissão imoral".
pronto, ja pode me detonar agora.
Vanderson.
Uma curiosidade: você é contra a propriedade privada?
Professor, penso que há propriedade necessária à vida e propriedade que é apenas privilégio ou lucro. A segunda forma de propriedade deve ser privada por que é resultado das difentes capacidades de um individuo pra outro, a primeira não, pois se for, significa que uns tem viver e outros não, e não acho que exista diferença tão grande entre nós pra justificar isso.
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