
Tendo a discordar de Luc Ferry. As alegações de que a burca não faz parte da “lista das obrigações determinadas pela religião muçulmana às mulheres” e de que ela é um “sinal de vínculo ao fundamentalismo” não servem como bons apoios para a proibição estatal do seu uso. Essa é minha posição em linhas gerais. E ela já é suficiente para discordar de Luc Ferry. Com efeito, as declarações dele sugerem a existência de razões para a proibição irrestrita das burcas (coisa pela qual alguns franceses lutam). O elemento complicador aqui é o fato da proibição ser aplicada ao domínio de escolas estatais. O Estado teria o direito de estabelecer regras sobre o uso de símbolos religiosos (sim, símbolos religiosos, pois mesmo sendo fundamentalista ainda é um fundamentalismo religioso) dentro das escolas visto que as escolas são suas, isto é, são instituições estatais de ensino. Isso parece evocar a ideia de contrapartidas. Ou seja, se crianças, jovens e seus pais são beneficiários de ação estatal, então seria cabível licitamente ao Estado cobrar obediência às regras para o gozo desse benefício representado por um ensino gratuito (pelo menos não diretamente pago, e pago indiretamente por um preço bem baixo, supondo que o número de cotizados seja bem maior que o numero de beneficiários).
Mas a se adotar essa linha de raciocínio, qual seria o limite para a ação do Estado (nas “suas” escolas)? O representante do Leviatã poderia dizer: quem não gostar que não matricule seus filhos nas escolas públicas. É claro que, rigorosamente, o princípio normativo libertário rejeita o ensino estatal. Mas, dada a existência do ensino estatal, o que um libertário poderia dizer sobre a proibição do uso das burcas? Acho que deveria fazer ecoar o brado retumbante apontando que é um abuso da coerção estatal. Razoável é tirar todos os crucifixos de salas de aula. Porém, o que um indivíduo quer colocar em seu corpo, eis um problema que pertence apenas ao indivíduo (no caso de crianças, a elas e a seus pais). O interessante nessa conversa é esse tom universalista. Essa pose antirelativista. Ora, nossos juízos morais não devem ter a mesma extensão que nossos juízos políticos. Quer dizer, do fato de achar moralmente errado uma mulher ser humilhada não se segue que considere legítima uma lei que procure resolver essa imoralidade (algo parecido seria: o adultério é imoral, mas não cabe ao Estado entrar na parada). Tenho de admitir que há algo mal colocado no caso das burcas. Alguém poderia argumentar que a vítima da humilhação é coagida a padecer o confinamento imposto pela religião fundamentalista a que pertence. Mas se ela é coagida, ela precisa reclamar. Seria correto o Estado intervir mesmo sem reclamação? Não penso apenas na reclamação direta pela própria vítima, mas nas reclamações que poderiam vir de amigos e parentes. O Estado teria de agir como protetor dos humilhados e coagidos? Notem que uso o termo humilhação aqui no sentido que Luc Ferry sugere, isto é, da condição das mulheres serem obrigadas a usar a burca tendo em vista que o lugar estipulado pela religião a que pertencem não ser a esfera pública. Se elas fazem isso voluntariamente, não tem legitimidade a intervenção do Estado. O verdadeiro tolerante tolera a intolerância (no domínio político). O que o tolerante não deve tolerar é a violência e a fraude.
Antes me referi ao fato de que a existência do ensino público está dada. Alguém poderia protestar dizendo: “sim, está dada, mas a proibição do uso da burca também está dada. Por que lutar antes contra a proibição do uso de burcas e não contra o ensino público?” Aqui entra em cena algo que o bom senso político não tem dificuldades em assumir. Nem todas as lutas podem ser empreendidas ao mesmo tempo. Algumas até podem; elas podem correr paralelas, mas provavelmente com o empenho assimétrico de forças. Pois bem, lutar contra o ensino público é uma luta que não se resolverá (se é que algum dia se resolverá) a não ser em 5 ou 6 décadas (numa previsão otimista). Diferentemente é o caso das burcas. Nesse caso, é mais fácil que um número considerável de pessoas reconheçam procedência nas premissas que balizam a discussão sobre a legitimidade da sua proibição.
Ah, em tempo: que fique bem claro que, embora eu não seja um demissionário, sou evidentemente favorável à privatização da UEL.
Copyright © 2009 Aguinaldo Pavão
Londrina - PR
6 comentários:
Você não pode falar sério quando diz que é favorável à privatização da Uel. Ora essa!
Nós temos dezenas de exemplos que corroboram a tese de que no ensino privado o dono é quem dá as cartas, e você sabe, um dono numa empresa age mais rápido e mais indelicadamente que qualquer representante do Leviatã. Por uma questão simples, uma briguinha sem-vergonha, o cara te manda embora sem pensar duas vezes.
Não há segurança, não há critérios fidedignos, simplesmente porque não há compromisso que não venha abaixo ante as exigências da concorrência e da própria visão dos administradores. Empresa é empresa: ela procura o lucro, e por ele abre mão de posturas ideológicas, de visões humanistas, de critérios justos, de coerência, enfim do que for preciso.
Você lembra daquele professor de literatura que tinha mestrado e reputação e trabalhava num colégio do Rio de Janeiro? Só porque escrevia literatura erótica, o colégio julgou conveniente demiti-lo.
Cá entre nós: nesses arremedos de faculdades que nós tempos ao redor - que de tão sérias nem têm um quadro registrado de professores - você espera encontrar independência? Uma atmosfera universitária madura e livre?
Adoro as suas provocações. Elas fazem com que eu, à beira da meia-noite, me sinta estimulado a preparar um comentário... Porém, eu só vou acreditar que você é realmente um libertário quando, fiel a seus princípios, você sair da UEL e procurar uma vaga nas privadas (essa expressão vale nos dois sentidos). Para começar: se lá estivesse, você acredita que teria a liberdade que tem para publicar suas idéias abertamente como você publica em seu blog?
Abraços.
Caro Edgar.
Sejamos bem claros. Já que você escolheu discutir a minha coerência pessoal e não a ideia que eu propus, direi o seguinte. Falo muito sério. A ninguém que acompanha esse blog deveria surpreender minha posição favorável à privatização da UEL. O que é dito no final do post não passa de um singelo - veja bem, singelo - corolário de princípios liberais. Se a coerência de um libertário reside no fato dele não obter nenhum benefício da estrutura antilibertária em que vive, a tua sugestão está completamente furada. Com efeito, em universidades privadas eu não sobreviveria sem bolsas do Leviatã. Logo, não é trocando uma universidade publica por uma privada que a pessoa se torna mais coerente. Por acaso um empresário se torna antiliberal pelo simples fato de participar de uma licitação para serviços que não são justificados como funções do Estado segundo a ótica liberal? Claro que não. A pessoa é coerente se defende seus princípios e procura ser fiel às consequências desses princípios. Ora, tudo isso não passa de questões teóricas, que podem eventualmente exigir ação política. Por acaso a minha saída da UEL vai tornar o Estado menos antiliberal? Concordar com os princípios libertários em nenhum momento implica heroísmo demissionário.
Abraço.
Professor, trabalho numa empresa estatal e sou favorável à sua privatização. Não tenho a intenção de pedir demissão. Sou incoerente então? Só sei que a maioria dos meus colegas discorda de mim.
Fora todos os liberais das universidades públicas! Rsrsrs. Brincadeira.
Eles só querem professores de esquerda? Nada a ver.
Essa da Privatização da UEL merece um post a parte hein Professor, ainda que isso implique deixar de diagolar princípios e adentre no mérito.
Prezados Itamar, Iara e Tiago.
Obrigado por deixarem suas opiniões aqui no blog.
Farei algumas observações sobre os comentários de vocês.
1) Itamar. Acho que o argumento de quem vê incoerência no funcionário liberal de empresa ou instituição estatal reside na confusão entre duas afirmativas. (i) “A empresa/instituição estatal X deve ser privatizada” e (ii) “Quem trabalha na empresa/instituição X deve pedir demissão”. Eu defendo (i), não defendo (ii). Pois bem, supondo que o locutor de (i) trabalhe na UEL, pergunto: (ii) se segue de (i)? Claro que não. Até porque o camarada poderia dizer: espero continuar trabalhando na UEL quando ela for privatizada. Esse rudimentar exercício lógico revela o passo em falso dos questionadores de coerência pessoal.
2) Iara. Pois é, uma universidade pública deveria parecer compatível com a existência de liberais coerentes (coerentes no duplo sentido de (a) extraírem todas as consequências de seus princípios teóricos e (b) não anularem na prática o que é pregado na teoria [veja o comentário à observação de Itamar]).
3) Tiago. Quando me refiro à privatização da UEL apenas quero chamar a atenção para a consequência inevitável da tese liberal. Se há méritos na teoria liberal, então se segue obrigatoriamente que será meritória a não ingerência do Estado no ensino.
Abraços.
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