O Vermelho e o Negro é o maior livro de literatura de todos os tempos. Numa versão cristã, eu diria que é o livro mais impressionante que já li. Stendhal não precisa da prolixidade de Balzac para falar dos tormentos cardíacos de uma alma apaixonada. Seu estilo tem uma aridez formidável. É mais penetrante que Flaubert na psicologia de seus personagens. E que diferença com Dostoievski. É claro, é claro que o russo é um escritor genial e profundo. Mas quando se trata de histórias de amor ... Ah, aí Stendhal dá uma surra. Julien e Madame De Rênal não representam apenas uma bela história de amor. Isso seria muito pouco, é evidente. Acontece que esse casal de amantes é pintado por uma artista que tinha uma boa teoria sobre o amor. Sei que isso não explica o fato de Stendhal ser mais profundo que Dostoievski ao tratar dos corações apaixonados. O ponto de Stendhal parece-me muito mais contundente, pois ele não subsume, como faz Dostoievski, o amor no tratamento de almas metafisicamente perturbadas. (No Jogador é dada uma atenção maior ao amor do que Memórias do Subsolo, Crime e Castigo, Irmãos Karamázovi, O Idiota e Os Demônios). Stendhal embrenha-se em almas mundanamente perturbadas. Haverá algo mais antimetafísico do que o amor? Em O Vermelho e o Negro não está em questão o bem e o mal. Está em questão a felicidade. O que quero dizer é que Stendhal olha para o que há de pequeno no indivíduo e se detém nisso. É claro que a felicidade pode – e talvez deva – ser ponderada moralmente. Mas Julien não se preocupa com os outros a não ser à medida que os outros estão no seu caminho. Não existem muitas entidades abstratas a serem tematizadas. É verdade que no final de O Vermelho e o Negro, Julien faz aquele discurso de pároco de aldeia. Discurso excessivamente vermelho. Julien não precisava daquilo. Não precisava falar dos jovens oriundos da classe inferior, dos oprimidos pela pobreza, dos camponeses ... Bastariam algumas palavras em homenagem a Napoleão e uma frase de desprezo àquela gentinha. Por certo, o mundo, as pessoas, o juízo alheio, a exterioridade em geral, estão sempre azucrinando a mente de Julien. Mas a questão nesse caso está no fato de Stendhal corretamente retratar, provavelmente sob a influência de Rousseau (excepcionalmente boa nesse caso), o homem como ser que age num palco. O amor de si mesmo já era (bem entendido, ele vai cumprir apenas o seu desprezível papelzinho). Trata-se de entender o amor-próprio. E esse move montanhas. É mesquinho, esquivo, orgulhoso, joga, faz apostas pequenas. Opa, Julien parece fazer apostas grandes. Seu amor-próprio é tão inflado que ele pensa num palco maior. Não por acaso Napoleão é seu ídolo. Mathilde também pensa em palco, mas um bem menor que o de Julien. E Madame de Rênal? É interessante que ela, a preferida pelo coração de Julien, é a que menos age pensando estar em um palco.
E a ruína de Julien parece ficar a meio caminho da importância altivamente concedida à platéia e ao papel decisivo que Madame de Rênal joga em sua vida. Ele não parte de Paris para Verrières apenas por causa de sua honra. Ele parte porque sente no peito uma facada dada pela mulher que ele ama. Na verdade, a tentativa de matá-la parece ter ocorrido num momento em que ele jogou pensando apenas na platéia formada por um único ser, a sua adorada Madame de Rênal. Aparentemente é uma contradição. Mas talvez Julien tenha pensado como Antonio.
Sabendo quem era Cleópatra, mil vezes querer o afundamento do Roma no Tibre por Madame de Rênal. Mas que apequenamento do mundo, hein. É preciso admitir que, no fundo, o universo amoroso é minúsculo e a aposta é bem pequena.
É uma pena que Stendhal não atenha conseguido, na Cartuxa de Parma, a mesma economia narrativa que ele genialmente oferece ao público em O Vermelho e o Negro. Tampouco a história de Fabrizio del Dongo tem a grandiosidade dos passos físicos e mentais dados por Julien Sorel. Mas é uma história de amor e muito bela. Não está, por certo, à altura de O Vermelho e o Negro. Embora a se lamentar, é compreensível que um grande autor não seja bom sempre. Notem que eu não afirmo que Stendhal é o maior escritor de todos os tempos, em que pese achar o Vermelho e o Negro o maior livro de todos os tempos.
Copyright © 2009 Aguinaldo Pavão
Londrina - PR