06 abril 2009

Considerações morais sobre O Idiota de Dostoievski

Há deficiência moral nos atributos de caráter do príncipe Míchkin, especialmente com respeito à ausência de certos sentimentos, como da indignação. Aristóteles considerava que era uma virtude indignar-se, ou melhor, encolerizar-se - é claro que na ocasião oportuna e de uma maneira apropriada. A falta de cólera é apatia. Não se confunde com tolerância, esta sim é uma virtude (o excesso seria a irascibilidade). Há, pois, um modo vicioso ou moralmente deficiente de reagir ao que julgamos errado. Por exemplo, a reação mansa de Míchkin diante de assassino Rogójin quando este apresenta o cadáver de Nastácia não seria uma forma de deficiência moral? Isso sem falar na mansidão indevida de Míchkin depois que Rogójin tenta esfaqueá-lo (claro, depois que ele se recupera do ataque de epilepsia). Inclino-me a pensar que tais reações são sim deficiências morais. Se estiver certo, tal apreciação prejudicaria tremendamente a ideia de que Míchkin representaria o grau supremo da evolução do indivíduo, livre do egoísmo e capaz de se sacrificar em benefício de todos (cf. o prefácio do tradutor Paulo Bezerra. Ed 34). Eu fico com Max Weber para quem o preceito cristão “ofereça a outra face” representa uma ética da indignidade. Em O Idiota estamos diante de um sujeito que é apresentado como um herói moral. Pior que isso, parece que nos deparamos com a tese de que a bondade moral implica heroísmo. Ora, a bondade moral não precisa ser entendida como algo heróico. A bondade moral pode perfeitamente ser compreendida como a qualidade do caráter das pessoas comuns. Embora insondável, não vejo qual a exigência conceitual para se pensar a bondade moral necessariamente por meio de figuras heróicas ou como se a bondade exigisse heroísmo. Maquiavel diz que entre maus é preciso agir com maldade (eu sei, eu sei que ele diz isso como conselho ao príncipe, mas se o que ele diz tem valor moral, então teria de valer universalmente). Isso é muito curioso e dificilmente defensável. Eu já tentei defender Maquiavel num artigo (“A Relação entre Ética e Política Em Maquiavel”. Revista Crítica, v. 5, n. 19, 2000, p. 223-239), mas hoje reconheço que forcei a barra para socorrê-lo. Com Maquiavel, ou você força a barra, colocando para baixo do tapete passagens importantes, ou você põe a corda no pescoço – eu gostaria de ver um comentarista de Maquiavel fazer algo diferente disso para defendê-lo. Bem, mas voltando a à ideia sobre não poder ser bom entre maus, é preciso fazer notar que não pode ser considerada, por exemplo, má a ação de autodefesa. Em termos gerais, moralmente é um mal matar, mas não acredito que seja moralmente um mal matar para não ser morto. Não é estranho que Agostinho tenha defendido que não se deve matar em defesa da própria vida. Digo que não é estranho, pois como cristão Agostinho estava preocupado não com a morte do corpo mas com a salvação da alma. No romance O Idiota, acredito que há várias personagens que poderiam ter um caráter moralmente bom. E isso é mais coerente com a ideia de que a moralidade não seja coisa exclusiva de heróis. Por exemplo, considero o personagem Ievguiéni Pávlovitch uma pessoa boa (virtus phaenomenon, pois moralmente, ah moralmente, moralmente é insondável. Ok, ok.). Ievguiéni censura Michkin, a seu modo é claro, isto é, de forma muito educada, pelo fato do príncipe não ter conferido à Aglaia a atenção que ela merecia no embate com Nastácia. Ievguiéni, aliás, decifra a personalidade de Michkin, isto é, identifica sua bondade ou idiotice na falta de experiência, na “ausência fenomenal de senso de medida”. Alguns acharão uma tese arriscada certamente. Porém, acredito que de um ponto de vista aristotélico, ou mesmo humeano, tal diagnóstico seria perfeitamente razoável. Até em Kant daria pra dar uma arrumada nisso. Acho que daria pra pegar a Doutrina da virtude e dar um jeito.
* * *
Míchkin é um tanto aéreo - constatação trivial. Mas, por vezes, tem uma percepção penetrante das pessoas. Não vou seguir aqui Paulo Bezerra, o tradutor, que a meu ver exagera quando afirma: “Míchkin tem uma capacidade excepcional de penetrar na interioridade das pessoas e defini-las”. E não o sigo por uma razão simples. Uma das principais pessoas que Míchkin deveria se empenhar em aplicar sua “capacidade excepcional” (e lograr êxito) é Aglaia. Ora, Aglaia permanece para o príncipe como algo indecifrável. Ele mesmo admite não conseguir saber o que se esconde naquela alma. Míchkin é, como já observado, deveras manso. Chega a ser quase estóico, mas não é um estóico. Sua alma se agita e ele parece “deixá-la” se agitar para ver aonde isso vai dar. Sua “idiotice” beira a ironia com os outros personagens. É verdade que muitos dos risos de que ele é vítima são risos merecidamente dirigidos a ele. Há boas razões para rirmos do candidez do príncipe.
* * *
Há temas interessantíssimos em O Idiota. Por exemplo: a pena de morte, o suicídio, o pan-eslavismo, o jesuitismo, o homem moderno (homem que não tem apenas uma ideia). Mas há um que me chama atenção. O tema diz respeito ao seguinte problema. O que pode um homem responder a uma mulher que lhe pergunta: como você poderá me fazer feliz? Aglaia, a inquiridora, tem alguns elementos exigíveis: dinheiro e atividade. Não sei se ela leva tão a sério o primeiro elemento (deveria levar), mas certamente o segundo é crucial para ela. Afinal, nisso estaria: a admiração, o reconhecimento do homem pretendente. O que faz Míchkin? Ora, o príncipe não faz nada. Daí ser muito coerente a apreensão dos pais de Aglaia. Devido à sua inatividade, Míchkin seria um homem sem importância. É preciso querer algo da vida além de simplesmente vivê-la. É preciso fazer diferença. Um belíssimo ponto. Aqui, cabe notar que Lisavieta parece temer também a natureza assexuada do príncipe – essa é a impressão que tenho. Com efeito, também se espera de um homem, de um genro, que ele possa transmitir o legado de nossa miséria, digam o que disserem Schopenhauer e Brás Cubas.

2 comentários:

Renata Peruzzo disse...

Qual deveria ser a reação de Míchkin diante do assassino Rogójin e o cadáver da Nastacia?
O fato do próprio príncipe não se vingar do criminoso é até razoável se pensarmos que a sua ação poderia acarretar algo que lhe é desfavorável. Mas o problema não se encontra neste caso e sim no fato de Míchkin não sentir nenhum tipo de repulsa ante a ação de Rogójin, é sensato não serevoltar com aquele que matou uma pessoa que lhe é querida? Ou melhor, é possível perdoar (termo que não sei ao certo se convém ao personagem principal) um assassino?
Com relação aos princípios cristãos alguém poderia dizer que não se deve atribuir o mal a ninguém, nem mesmo a um inimigo, mesmo porque a vingança não caberia ao homem, como na passagem de Romanos 12: 17-21. Ora, mas disto não se segue que o individuo exclui o sentimento de indignação perante a ação do criminoso, pois o primeiro espera que algo seja feito por parte de Deus ou então busca por meio de suas ações pacificas obter a salvação eterna.
Agora, trazendo as mesmas condições para um ateu no qual não tem nenhuma expectativa de que Deus fosse fazer algo e que não tem em mira a vida eterna, é passível de conceber que ele não faça nada, mas perdoe o assassino, como se o compreendesse?
O príncipe Míchkin dá a impressão de ser um individuo que sempre realiza a caridade desinteressada (na ausência de qualquer finalidade), o que me parece impossível, pois seus atos me remetem ao sentimento de piedade pelas pessoas e é este sentimento que lhe impulsiona a ajudá-las, aparentemente sem interesse próprio. Contudo me parece um erro pensar desta maneira, uma vez que ele busca sanar a sua dor quando finda o sofrimento dos outros (não quero dizer que a compaixão deve ser excluída, e sim dizer que ela não é um exemplo de ação moral). Este sentimento compassivo para com os outros muitas vezes parece levar Míchkin a agir de uma maneira que não me parece correta, como exemplo querer ajudar Nastacia por compaixão e renunciando Aglaia, ou então, o próprio tema do post a ausência de indignação.
Outro problema surge se imaginarmos o perdão como pertencente a pessoa na qual sofreu injustiça, neste caso o próprio perdão (seguindo a passagem do livro em que Nastacia está morta) não poderia existir já que Nastacia havia falecido, tem como Míchkin fazer algo por ela? Ou melhor, um morto necessita que façamos algo por ele? Entretanto aqui apareceria uma dificuldade até mesmo para conceber a punição, pois como saberíamos qual a pena proporcional ao crime que o individuo cometeu?
A ausência de indignação, assim como abrir mão de Aglaia para ficar com Nastacia por compaixão são exemplos de moralidade? Se a pretensão era apresentar um exemplo de individuo bondoso, acredito que o livro dá boa razão para duvidar disso.
Lembro-me do que meu irmão me disse quando leu esta obra, segundo ele, o príncipe era um a pessoa boa e agia de maneira correta, a sociedade que era corrompida e o tomava por idiota, no entanto se não o avaliamos como este exemplo de moralidade, se a falta de indignação parece absurda, porque não neste caso atribuirmos o termo idiota?
Referente à pergunta de Aglaia de como Míchkin poderia fazê-la feliz, não sei se compreendi o seu ponto, mas todos os requisitos que geram o reconhecimento e a admiração me parecem relativos. Riquezas, a atividade, a bondade entre outras coisas são necessariamente desejáveis, mas é crucial? E se Aglaia acha-se a “bondade” de Míchkin mais fundamental que os outros requisitos, e daí que ela exija o dinheiro e a atividade? Ela poderia muito bem achar qualquer outra coisa mais relevante (acho que “fazer algo da vida além de simplesmente vive-la”, o “fazer a diferença” é muito bonito, entretanto não arriscaria dizer que é a condição fundamental para fazer alguém relativamente feliz, mesmo porque em sentido absoluto é impossível).
Lindo Post.
Abraço

Aguinaldo Pavão disse...

Oi Renata.
Obrigado pelo comentário. Fico feliz por saber que gostou.
Você assinala vários pontos interessantes. Vou me deter apenas na reação emocional do príncipe Míchkin. Veja, não me refiro à vingança como algo normativamente desejável. Refiro-me à reação apática de Míchkin. Certamente, uma reação vingativa parece envolver, embora de modo não necessário, elementos de não apatia. Contudo, não é difícil perceber que reações não apáticas não implicam necessariamente vingança. Acho que o ilustre príncipe deveria ter deixado claro a inaceitabilidade moral dos atos de Rogójin (penso especialmente na tentativa de homicídio contra ele e no homicídio consumado contra Nastácia). Como deveria ser essa manifestação emocional da inaceitabilidade de tais atos? Não sei exatamente. Há uma latitude a ser considerada nesse caso. De qualquer forma, a mansidão de Míchkin deveria ser censurada visto que reflete uma dosagem passional desequilibrada.
Abraço.