Gostei do filme. O tema é interessantíssimo e Sean Penn dá um show para variar. Pontos que me chamaram a atenção: (a) os aspectos históricos do movimento gay nos EUA, (b) a repressão social e estatal a homens que simplesmente desejam se beijar em público, que querem viver juntos e ser felizes sem qualquer prejuízo ao respeito à liberdade de outrem que cada ser humano deve a outro ser humano; (c) o inconformismo com o estado de coisas e a decisão de que é preciso agir. Milk é um gay que sai do armário. E a saída do armário é um ponto importante do filme; (d) o filme mostra gays que lutam por seus direitos (embora nem todos os direitos pelos quais eles lutam eu concorde), mas essa luta é feita com uma combinação muito bonita de leveza, de humor, com coragem e de generosidade com agressividade. Mesmo discordando de alguns pontos, é impossível não ter simpatia e não se identificar com a luta de Milk.De um ponto de vista moral – que me parece ser sempre o ponto mais interessante nessas discussões – os gays erram em exigir que a coação estatal impeça que eles percam seus empregos. Assim como, evidentemente, erram os conservadores religiosos – os estúpidos do filme – em exigir que, mediante leis positivas, sejam proibidos postos de trabalho para gays. A sociabilidade política deve fazer exigências mínimas. E julgo uma exigência excessiva proibir ou obrigar proprietários a terem de contratar ou deixar de contratar outras pessoas que não aquelas que eles querem contratar. Eles têm direito à sua propriedade. Um dono de uma transportadora não fere o direito inato à liberdade dos seres humanos se não quer ter como motoristas pessoas homossexuais. Sei que isso soa preconceituoso e incompatível com as bandeiras do movimento gay, tal como retratado belamente no filme. Mas, infelizmente, o filme não é exatamente uma apologia da liberdade. Se fosse, se limitaria a exigir que o Estado não interferisse na vida das pessoas quando estas nada mais desejam do que exercitar seus arbítrios segundo um princípio universal de compatibilidade do exercício do arbítrio de todos. Daí ser contra o princípio da liberdade a proibição de beijos de homens em locais públicos, de casamento de homossexuais e demais direitos que não interferem na liberdade dos outros. E quando penso em não interferência na liberdade dos outros, penso sim na liberdade que o dono da transportadora tem de não querer funcionários homossexuais. Esse é um direito dele. Assim como é direito de um outro dono de transportadora ou de qualquer atividade econômica somente querer homossexuais em seu quadro de funcionários. Os heterossexuais seriam prejudicados no mercado de trabalho se houvesse um desejo difundido dos proprietários de empresas em quererem somente homossexuais como trabalhadores. Mas que argumento moral pode ser usado para justificar a coação estatal nesses casos? Não vejo nenhum que valha dois copeques. O Estado deve ficar na dele, isto é, cuidar da proteção da vida, liberdade e propriedade dos indivíduos.
Acredito sim que a tese de que os gays devem sair do armário como forma de se lutar contra os preconceitos sociais que pesam sobre suas costas é uma boa tese. Mas Milk não tem uma posição esclarecida sobre isso. Numa parte do filme, ele sugere fazer pouco caso do inalienável “direito à privacidade”. Parece-me que ele mistura as coisas. Uma, é defender com bons argumentos que as conseqüências de uma vida em que se mente para os pais, que se mente para parentes e colegas de trabalho está longe de ser uma vida autêntica. Ademais, isso é um gesto que implica renunciar à solidariedade com uma luta que levanta a bandeira da liberdade (da sua própria liberdade). É claro que não penso, como assinalei acima, que se trate de uma bandeira exclusivamente libertária. Ela tem elementos não libertários. Bem, mas isso tudo deve se resumir à procura do convencimento. Os gays que mostram suas caras, que lutam, devem procurar persuadir outros gays a saírem do armário. Agora, alegar que o “direito à privacidade” não merece reverência, isso me parece uma posição liberticida. Obrigar um amigo a ligar para a casa de seus pais e dizer: Oi mãe, tudo bem? Estou ligando pra dizer que sou veado, envolve uma pressão social (é claro que de um grupo menor) que agride o direito sagrado que um indivíduo tem de passar a vida inteira escondendo dos outros o fato de ser gay - como, de resto, o direito que qualquer pessoa tem de mentir para os invasores de sua privacidade. Não deixa de ser altamente sintomático que o título do filme no Brasil seja: Milk – a voz da igualdade. Eles interpretaram bem o filme. Não é exatamente a voz da liberdade que se faz ouvir. Quem fala alto no filme é, de fato, a voz da igualdade.
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