17 janeiro 2009

There’s probably no God

Chamou-me atenção a noticia de que em Londres, a partir desse mês, ônibus poderão estampar faixas com os dizeres There’s probably no God. Now stop worring and enjoy yuor life.

Primeiro, acho interessantíssima uma campanha atéia e altamente justificável a iniciativa. Se as pessoas religiosas têm o direito de divulgarem em outdoors dizeres bíblicos sobre o céu, o inferno, a felicidade e todo o blábláblá cristão (ou de qualquer outra religião), por que não teriam também direitos os ateus de fazerem propaganda de suas convicções?

Agora, o provavelmente parece-me, embora profundamente honesto, um complicador. Pensei em Pascal. Se é improvável a existência de Deus, digamos consideravelmente improvável, é possível, contudo, que ele exista. E se Deus existir?


Pesemos o ganho e perda escolhendo a cruz, que é Deus. Consideremos esses dois casos: se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, não perdereis nada. Apostai, pois que Ele existe, sem hesitar. (Pascal)

É claro que essa aposta só tem sentido se acreditarmos num Deus que vai ficar magoadinho com o fato de alguém, uma criatura sua, não ter acreditado na sua existência; que vai querer dar um troco ao incrédulo. Uma aposta meio patética, mas que poderá levar algumas pessoas a tomá-la como razoável.

Outro ponto, a idéia de gozar (ou curtir) a vida pode passar a opinião de um certo hedonismo rústico. É claro que em boa medida eles estão certos. De fato, os religiosos em geral acreditam que muitas ações, que em sã razão ninguém poderia dizer que são imorais, são pecados e merecem a punição pós-morte. Imagine alguém que pensa que fazer sexo antes do casamento pode lhe custar os tormentos eternos no fogo do inferno. Imagine alguém que acredita que se não seguir as bobagens que um padre ou pastor falam padecerá de sanções divinas. Certamente, Deus fora da vida moral – quer ele exista ou não – permite um hedonismo sóbrio. Porém, talvez esse pensamento acabe gerando a desconfiança em algumas mentes piedosas de que ele estaria passando a mensagem de que, sem Deus, não haveria necessidade de nos reprimirmos, de nos policiarmos moralmente. E isso é um erro. Até a tia Julia sabe que sem refrearmos nossos desejos a vida em sociedade é inviável.

Talvez algum Duda Mendonça devesse repensar a propaganda dos ateus e também apresentar, aos agnósticos, algumas idéias para a campanha destes.


* publicado no blog em 17/01/09