Acho que quem gosta de Schopenhauer precisa admitir uma certa inclinação Um bom filosofo não acredita muito na filosofia. Quem fica fazendo encômios e mais encômios à filosofia tem minha desconfiança. Platão, Epicuro, Zenão, Epicteto, Sêneca não me agradam nem um pouco quando ficam babando por filosofia e mais filosofia. Digo até Platão, o que talvez seja uma injustiça. É claro que, nesse aspecto, Platão evidentemente é um universo e sempre (ou quase sempre) podemos encontrar nele um demônio azucrinando a vida dos que querem colocar suas adoráveis cabeças no travesseiro suave dos consolos filosóficos. Bem, estou falando isso para chegar a este ensaio que reli ontem. A filosofia e seus pífios poderes. Eu resumiria assim.
Luc Ferry afirma, como registrei no post mencionado, que “por não conseguir acreditar num Deus salvador, o filósofo é antes de tudo aquele que pensa que, se conhecermos o mundo, compreendendo a nós mesmos e compreendendo os outros, tanto quanto nossa inteligência o permite, vamos conseguir, pela lucidez e não por uma fé cega, vencer nossos medos”. Talvez não. Conseguiremos vencer nossos medos, nossas angústias, inseguranças e tormentos passionais se tivermos sido agraciados pela natureza com uma predisposição ao uso sereno, sóbrio das pílulas tranqüilizantes que a filosofia oferece. Ela oferece mesmo; Hume admite isso. Hume relata várias dessas pilulazinhas. Na verdade, as ridiculariza, pois elas só têm efeito em termos gerais, abstratos. Idéias de serenidade e de indiferença diante do inelutável, se não forem vivificadas pela experiência de algo melhor, nenhuma impressão decisiva terão em nossas mentes. Em sua crítica a esse ser filosófico, que faz desdém, com sua olímpica sabedoria, das vicissitudes humanas, Hume afirma: “enquanto são os outros que estão em jogo, espanta-se com seu ardor e entusiasmo, mas, quando é ele que está em jogo, é geralmente transportado pelas mesmas paixões que tanto condena quando era simples espectador”.É interessante que em “O cético” você tem quase tudo que precisa. Ele te deixa desamparado filosoficamente. E ouso dizer que é disso que precisamos. Precisamos de menos filosofia. Precisamos nos desintoxicar da filosofia. Não que Hume negue totalmente algum poder que a filosofia possa ter sobre a vida das pessoas. Não, sua sobriedade o impede disso. Mas ele enfatiza que a influência da filosofia depende da influência que a natureza, já bem antes, teve sobre nós. É nossa constituição natural, é nossa personalidade, são os elementos que não escolhemos que nos tornam suscetíveis à filosofia. Portanto, a cura, a salvação não vem da filosofia. Ela vem do que não depende de nossas vontades. Ela vem do que somos, de nossa estrutura passional, de nosso temperamento. E o que somos, não depende de nós, ao menos não depende tão profundamente como as pessoas pensam. Daí a filosofia ter poderes terapêuticos frágeis. “A estrutura e constituição de nossa mente depende tão pouco de nossa escolha como a de nosso corpo. [...] A filosofia exerce seu domínio sobre muitos poucos, e mesmo em relação a estes sua autoridade é extremamente fraca e limitada”.
Se meu olhar consegue ser calmo e geral sobre a vida humana, então a medicina da alma de Epicuro, de Zenão, pode ter algum efeito. Ora, o meu olhar sobre a vida nem sempre é calmo e geral. No mais das vezes é agitado e particular. Então, estou perdido. Talvez. Talvez esteja perdido no labirinto da minha natureza, isto é, de minhas paixões. E se há alguma salvação é nela que devo buscar, não na filosofia.
4 comentários:
Belíssimo artigo, mesmo para uma não filósofa. Inspiradíssimo. Os "dodóis" a gente pode dar um jeito (rsrs). Beijo
Oi professor,
Referente ao seu texto gostaria de colocar aqui que admito a relação do existencialismo em Schopenhauer, desde que não implique conceber o homem como criador do seu próprio mundo, pois, em Schopenhauer não a como mudar a natureza humana, esta já é objetidade da Vontade, bem como todo este mundo visível, para o autor eu não posso nem me arrepender do que quis, de maneira que não consigo encaixar aqui uma vertente existencialista na qual admite o fato de o homem pode ser aquilo que ele quer que seja (construir a si e o mundo), entretanto parece ser mais passível colocarmos o ser humano como aquele que contempla (homem como telespectador do mundo).
Ora! Se não posso mudar o que quero e não há meios para modificar a natureza humana, o que Schopenhauer propõe não se refere a um homem que é como prefere ser, e sim o homem que se conhece, contudo, o conhecimento aqui também está a serviço da Vontade, como posso encarar neste autor, então, um ser humano que decide o que vai ser? Isto não me parece possível.
“Daí não poder decidir ser isto ou aquilo, nem tornar-se outrem, mas é de uma vez por todas, e sucessivamente conhece o que é”. (SCHOPENHAUER).
O que me parece mais plausível seria a contemplação, já que nesta não se separa quem intui da intuição, onde a Vontade é uma única e mesma tanto no objeto contemplado quanto no individuo que a contempla. O que quero dizer aqui é o fato de o homem não ser sua própria obra, e este é um dos fatores que nego a relação de Schopenhauer com o existencialismo (na medida em que se refere ao homem como criador), mas aceito quanto me refiro a vertente em que o homem é um telespectador, ele não cria algo novo, mas pode se perde na intuição, e aqui sim pode se falar de livrar do querer (em um sentido bem diferente daquele que Sartre tem quando diz que o homem está condenado a ser livre, porque esse serve para criar a si e o mundo, já em Schopenhauer não envolve criar, mas refere-se ao esquecimento completo da própria pessoa, uma vez que, é a Vontade mesma).
“A gente se perde por completo nesse objeto, isto é, esquece o próprio indivíduo, o próprio querer, e permanece apenas como claro espelho do objeto então é como se apenas o objeto ali existisse, sem alguém que o percebe-se, e não se pode separar quem intui da intuição, mas ambos se tornam unos, na medida em que toda a consciência é integralmente preenchida e assaltada por uma única imagem intuitiva”. (SCHOPENAUER).
Não nego que haja outras possíveis correlações entre Schopenhauer e existencialismo, mas não é meu objetivo aqui explanar sobre todas as vertentes do existencialismo, e tenho de admitir não ser nem uma especialista no assunto, nem sei ao certo se isto que falei não é um monte de bobagem.
Espero que não fique aterrorizado caso forem comparações absurdas.
Abraço.
Oi Renata.
Muito obrigado pelo comentário. Acho que você está repleta de razão. Rigorosamente falando, Schopenhauer não é um filosofo existencialista. O que eu pretendia dizer era que haveria uma tendência nos leitores de Schopenhauer a se preocuparem com temas existenciais, como o sentido da vida, teorias soteriológicas e questões afins. Mas, na verdade, nem isso que escrevi está certo. Com efeito, é possível ler Schopenhauer e não ter muito apreço pelas reflexões existenciais que ele promove em sua obra. Reforço, pois, minha concordância com as tuas observações. A ênfase existencialista na liberdade (supostamente incompatibilista) não se coaduna de modo algum com o pensamento determinista de Schopenhauer.
Abraço.
Não sei, mas acho muito anti-intelectualista essa posição. É anti-intelectualista mesmo?
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