10 janeiro 2009

Hume, a felicidade e os pífios poderes da filosofia

Nenhum homem jamais seria infeliz se pudesse modificar seus sentimentos. (Hume. “O cético”)

Acho que quem gosta de Schopenhauer precisa admitir uma certa inclinação existencialista [melhor existencial] (não confundir com o mingau sartreano). Essa inclinação foi reanimada em mim ao ler o livro de Luc Ferry (Aprender a Viver), que muito bem pode parecer livro de auto-ajuda, ao menos o título sugere fortemente isso, mas que na verdade é uma instigante história da filosofia com uma tese ousada sobre o que consiste a filosofia, dando ênfase à tarefa soteriológica da metafísica não-plebeía. Já falei disso no post Filosofia ou religião. Bem, o quero dizer é que, como ando meio “dodói”, essas leituras andam me cativando atualmente mais do que em outras épocas, ou em outros períodos do ano, ou em outras fases do dia. Eu acredito que, pela manhã, as coisas vão bem, à tarde se consegue sobreviver e, à noite, é preciso evasão (apelando a todos os recursos). Portanto, essas dorzinhas me incomodam mais à noite, depois que já cansei de esperar os efeitos das pílulas mágicas. Então, insone recorro a leituras e releituras. Dia desses resolvi trocar a segunda pílula, vejam já estava prestes a partir para a segunda, pelo ensaio “O cético” do bom David. É de tirar o fôlego. Como ele escreve bem! Mas não é só isso. O bigode também escreve bem. O venerável Schopenhauer também escreve bem. Mas Hume, Hume é outra coisa. Hume escreve divinamente e pensa divinamente.

Um bom filosofo não acredita muito na filosofia. Quem fica fazendo encômios e mais encômios à filosofia tem minha desconfiança. Platão, Epicuro, Zenão, Epicteto, Sêneca não me agradam nem um pouco quando ficam babando por filosofia e mais filosofia. Digo até Platão, o que talvez seja uma injustiça. É claro que, nesse aspecto, Platão evidentemente é um universo e sempre (ou quase sempre) podemos encontrar nele um demônio azucrinando a vida dos que querem colocar suas adoráveis cabeças no travesseiro suave dos consolos filosóficos. Bem, estou falando isso para chegar a este ensaio que reli ontem. A filosofia e seus pífios poderes. Eu resumiria assim.

Luc Ferry afirma, como registrei no post mencionado, que “por não conseguir acreditar num Deus salvador, o filósofo é antes de tudo aquele que pensa que, se conhecermos o mundo, compreendendo a nós mesmos e compreendendo os outros, tanto quanto nossa inteligência o permite, vamos conseguir, pela lucidez e não por uma fé cega, vencer nossos medos”. Talvez não. Conseguiremos vencer nossos medos, nossas angústias, inseguranças e tormentos passionais se tivermos sido agraciados pela natureza com uma predisposição ao uso sereno, sóbrio das pílulas tranqüilizantes que a filosofia oferece. Ela oferece mesmo; Hume admite isso. Hume relata várias dessas pilulazinhas. Na verdade, as ridiculariza, pois elas só têm efeito em termos gerais, abstratos. Idéias de serenidade e de indiferença diante do inelutável, se não forem vivificadas pela experiência de algo melhor, nenhuma impressão decisiva terão em nossas mentes. Em sua crítica a esse ser filosófico, que faz desdém, com sua olímpica sabedoria, das vicissitudes humanas, Hume afirma: “enquanto são os outros que estão em jogo, espanta-se com seu ardor e entusiasmo, mas, quando é ele que está em jogo, é geralmente transportado pelas mesmas paixões que tanto condena quando era simples espectador”.

É interessante que em “O cético” você tem quase tudo que precisa. Ele te deixa desamparado filosoficamente. E ouso dizer que é disso que precisamos. Precisamos de menos filosofia. Precisamos nos desintoxicar da filosofia. Não que Hume negue totalmente algum poder que a filosofia possa ter sobre a vida das pessoas. Não, sua sobriedade o impede disso. Mas ele enfatiza que a influência da filosofia depende da influência que a natureza, já bem antes, teve sobre nós. É nossa constituição natural, é nossa personalidade, são os elementos que não escolhemos que nos tornam suscetíveis à filosofia. Portanto, a cura, a salvação não vem da filosofia. Ela vem do que não depende de nossas vontades. Ela vem do que somos, de nossa estrutura passional, de nosso temperamento. E o que somos, não depende de nós, ao menos não depende tão profundamente como as pessoas pensam. Daí a filosofia ter poderes terapêuticos frágeis. “A estrutura e constituição de nossa mente depende tão pouco de nossa escolha como a de nosso corpo. [...] A filosofia exerce seu domínio sobre muitos poucos, e mesmo em relação a estes sua autoridade é extremamente fraca e limitada”.

Se meu olhar consegue ser calmo e geral sobre a vida humana, então a medicina da alma de Epicuro, de Zenão, pode ter algum efeito. Ora, o meu olhar sobre a vida nem sempre é calmo e geral. No mais das vezes é agitado e particular. Então, estou perdido. Talvez. Talvez esteja perdido no labirinto da minha natureza, isto é, de minhas paixões. E se há alguma salvação é nela que devo buscar, não na filosofia.

4 comentários:

Anônimo disse...

Belíssimo artigo, mesmo para uma não filósofa. Inspiradíssimo. Os "dodóis" a gente pode dar um jeito (rsrs). Beijo

Anônimo disse...

Oi professor,
Referente ao seu texto gostaria de colocar aqui que admito a relação do existencialismo em Schopenhauer, desde que não implique conceber o homem como criador do seu próprio mundo, pois, em Schopenhauer não a como mudar a natureza humana, esta já é objetidade da Vontade, bem como todo este mundo visível, para o autor eu não posso nem me arrepender do que quis, de maneira que não consigo encaixar aqui uma vertente existencialista na qual admite o fato de o homem pode ser aquilo que ele quer que seja (construir a si e o mundo), entretanto parece ser mais passível colocarmos o ser humano como aquele que contempla (homem como telespectador do mundo).
Ora! Se não posso mudar o que quero e não há meios para modificar a natureza humana, o que Schopenhauer propõe não se refere a um homem que é como prefere ser, e sim o homem que se conhece, contudo, o conhecimento aqui também está a serviço da Vontade, como posso encarar neste autor, então, um ser humano que decide o que vai ser? Isto não me parece possível.
“Daí não poder decidir ser isto ou aquilo, nem tornar-se outrem, mas é de uma vez por todas, e sucessivamente conhece o que é”. (SCHOPENHAUER).
O que me parece mais plausível seria a contemplação, já que nesta não se separa quem intui da intuição, onde a Vontade é uma única e mesma tanto no objeto contemplado quanto no individuo que a contempla. O que quero dizer aqui é o fato de o homem não ser sua própria obra, e este é um dos fatores que nego a relação de Schopenhauer com o existencialismo (na medida em que se refere ao homem como criador), mas aceito quanto me refiro a vertente em que o homem é um telespectador, ele não cria algo novo, mas pode se perde na intuição, e aqui sim pode se falar de livrar do querer (em um sentido bem diferente daquele que Sartre tem quando diz que o homem está condenado a ser livre, porque esse serve para criar a si e o mundo, já em Schopenhauer não envolve criar, mas refere-se ao esquecimento completo da própria pessoa, uma vez que, é a Vontade mesma).
“A gente se perde por completo nesse objeto, isto é, esquece o próprio indivíduo, o próprio querer, e permanece apenas como claro espelho do objeto então é como se apenas o objeto ali existisse, sem alguém que o percebe-se, e não se pode separar quem intui da intuição, mas ambos se tornam unos, na medida em que toda a consciência é integralmente preenchida e assaltada por uma única imagem intuitiva”. (SCHOPENAUER).
Não nego que haja outras possíveis correlações entre Schopenhauer e existencialismo, mas não é meu objetivo aqui explanar sobre todas as vertentes do existencialismo, e tenho de admitir não ser nem uma especialista no assunto, nem sei ao certo se isto que falei não é um monte de bobagem.
Espero que não fique aterrorizado caso forem comparações absurdas.
Abraço.

Aguinaldo Pavão disse...

Oi Renata.
Muito obrigado pelo comentário. Acho que você está repleta de razão. Rigorosamente falando, Schopenhauer não é um filosofo existencialista. O que eu pretendia dizer era que haveria uma tendência nos leitores de Schopenhauer a se preocuparem com temas existenciais, como o sentido da vida, teorias soteriológicas e questões afins. Mas, na verdade, nem isso que escrevi está certo. Com efeito, é possível ler Schopenhauer e não ter muito apreço pelas reflexões existenciais que ele promove em sua obra. Reforço, pois, minha concordância com as tuas observações. A ênfase existencialista na liberdade (supostamente incompatibilista) não se coaduna de modo algum com o pensamento determinista de Schopenhauer.
Abraço.

Iara Fagundes disse...

Não sei, mas acho muito anti-intelectualista essa posição. É anti-intelectualista mesmo?