06 janeiro 2009

Israel e o Hamas (*)

O professor Marcos Nobre (Unicamp), em sua coluna semanal na Folha de São Paulo, escreveu um texto defendo um “pacifismo radical” como a mais razoável posição a ser tomada acerca do conflito envolvendo Israel e o os terroristas palestinos do Hamas. Eu gostei do artigo. Não concordo com a tese do autor, mas admito que a idéia é bem colocada e acredito ser produtivo refletir sobre ela.

De acordo com Marcos Nobre, “é preciso tomar posição nos conflitos no Oriente Médio. Mas qual? E, sobretudo, como? A única coisa de certo no momento é que Israel tem de ser obrigado a parar sua ofensiva militar. Se o objetivo for a guerra, basta tomar posição por um dos lados. Mas e se o objetivo for a paz, e não derrotar um inimigo?”

Aqui vejo dois problemas. Primeiro, não estou certo de que Israel tenha de ser obrigado a parar sua ofensiva militar. Em segundo lugar, qual pode ser o objetivo de uma guerra? Por certo, não a própria guerra. Israel certamente não visa à guerra pela guerra. Ele visa à sua defesa e – admitamos – a destruição, ou enfraquecimento do poder de fogo do Hamas. E o que visa o Hamas? Não é a própria guerra. Se for a própria guerra, então ele pretende uma guerra sem fim. Seria estranho fazer guerra para que ela nunca tenha fim, pois o objetivo seria continuar guerreando indefinidamente. Isso me parece sem sentido. Acredito que os dois lados buscam, pelo conflito bélico, algo distinto da guerra. O problema é que o Hamas tem como objetivo a eliminação do Estado de Israel. Se numa guerra as partes não têm suas existências minimamente reconhecidas, somente com a total destruição do lado contrário é que se pode cessar o conflito. E vejam, isso não pode ser confundido com derrota do adversário. Querer derrotar, em algum sentido, o adversário é inerente à ação bélica, mas isso não implica necessariamente sua total destruição. Agora, eu pergunto: alguém acredita que o Hamas algum dia irá conseguir destruir Israel?

Há uma outra observação de Marcos Nobre que vale a pena comentar: “a única maneira de resistir à guerra é defender um pacifismo radical, sem tomar posição prévia por nenhum lado. Toda e qualquer ação que tenha conseqüências bélicas deve ser condenada, independentemente de que lado venha. Se Israel impede o funcionamento do governo do Hamas em Gaza, se o Hamas se nega a reconhecer o direito de existência a Israel, se Israel se recusa a reconhecer o governo do Hamas como legítimo, se o Hamas ataca militarmente Israel, em todos esses casos, ambos os lados devem ser condenados da mesma maneira”.

Não sei. Estaria Israel errado em impedir o funcionamento do governo do Hamas? Por acaso o Hamas não prega a destruição do Estado de Israel? E é interessante observar, para as pessoas que adoram a democracia, que o Hamas foi eleito pelos palestinos para comandar a faixa de Gaza. Não é estranho um grupo terrorista disputar eleições?
Parece-me que a balança deve se inclinar em favor de Israel. Sendo assim, não abraço a tese de um pacifismo radical. É claro que discordo da política de Israel acerca do direito dos palestinos a um Estado soberano, não a essas concessões territoriais com fronteiras controladas e com diversas restrições ao livre exercício de uma autêntica soberania nacional.

Eu penso que se alguém entra em conflito comigo e diz que quer me eliminar, eu estou autorizado a guerrear com essa pessoa e buscar a sua eliminação como a mais lícita atitude de autodefesa. Vejam, não entro aqui em discussões especificas sobre a desproporcional ação bélica de Israel na faixa de Gaza. Tampouco discuto a gênese do Estado de Israel e o não cumprimento de resoluções da ONU para a criação do estado Palestino. Meu ponto é o seguinte: considerando o estado atual das coisas, Israel está certo ou errado em atacar o Hamas? Inclino-me a pensar que está certo. Logo, sou da opinião de que os pacifistas estão errados.


(*) Esse texto foi publicado, com pequenas modificações, na Folha de Londrina de 11 de janeiro de 2008, com o título "O conflito na Faixa de Gaza".

12 comentários:

Marcelo Rissatto disse...

"Fazemos guerras para podermos viver em paz"

Aristóteles, em um comentário que cairia muito bem ao artigo do prof. Pavão sobre Israel.

Ralph Kohler disse...

Aguinaldo

No que diz respeito ao ponto que tu defendes, não poderia deixar de concordar com sua posição. Como pensar na possibilidade de negar o básico direito de autodefesa dos israelenses? Negar tal direito, vislumbrando um pacifismo radical como possibilidade razoável de resolução deste conflito, parece-me uma tese um tanto exótica, insustentável e ingênua. Karl Popper parece-me sóbrio e arguto quando delimita a tolerância dentro de um escopo em que a mesma possa ser conservada e cultivada.

“Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes senão corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância.”

Abraço.

Tiago Violante disse...

Caro Aguinaldo,

Sobre a invasão de Israel no Estado da Palestina só me resta repetir a frase (quase clichê) de Jean-Paul Sartre: "Não importa o que fizeram do homem, mas o que ele faz com o que fizeram dele"

Dessa forma, mesmo não sabendo os reais motivos que impulsionaram seus governantes nessa guerra (e a história é uma criação sempre sustentada pela instanteneidade do do presente), somos livres para criarmos os nossos e, consequentemente, escolhermos um lado desse combate. Então, mesmo sabendo que seu ponto pretendeu ser contrário à concepção de pacifismo defendida pelo professor Marcos Nobre, pergunto: não seria o valor da própria paz (defendida pelo Estado de Israel) que estaria sendo vinculada aos seus interesses numa tomada de posição?

Se for possível, gostaria também que discorresse mais sobre o porquê da balança pesar mais para o lado de Israel... O que de fato lhe motiva a tomar essa posição?

grande abraço,
Tiago.

Aguinaldo Pavão disse...

Caros Marcelo e Ralph.
Obrigado pelos comentários.
Ralph, acho que as palavras de Popper estão corretíssimas(nao sei onde ele disse isso; nao sei se foi na Soc Aberta ou nas Conjecturas - bem nao me lembro mais).
Abraços

Aguinaldo Pavão disse...

Caro Tiago.
Vou tentar te responder, mas não sei se conseguirei, pois não entendei bem tuas perguntas.
1. O pacifismo não pode ser confundido simplesmente com a defesa da paz. A paz é um bem reconhecido por todas as pessoas sensatas e nem todas as pessoas sensatas são pacifistas.
2. Israel está a se defender e eu sou favorável à autodefesa.

Abraço.

Tiago Violante disse...

Aguinaldo,

Obrigado pela resposta...
Realmente não tenho conhecimentos suficientes para me "meter" nos comentários profundos sobre os elementos que norteiam essa guerra. Contudo, parece que se tornou comum nos diversos meios de comunicação a intenção de Israel em contra-atacar (será que há hifem?) a Palestina (como você lembrou bem, o Hamas foi eleito pela maioria) sob o pretexto de se fazer valer a divisão do território instituído pela ONU. Se assim for, parece-me que mesmo considerando a Palestina (o Hamas como seu representante oficial) um povo inimigo (terroristas) e os bombardeando para os enfraquecer, e consequentemente poder se defender, Israel hasteia a bandeira da paz como objetivo final; assim, sob o discurso de que seu alvo é apenas o Hamas, mata civis e provoca destruição em nome daquele Estado instituído pela ONU e do qual a Palestina não deseja.
Veja que tenho essa concepção de paz como legitimadora dos confrontos, portanto, como lembrou bem o Marcelo ao citar Aristóteles, como a própria noção de que se vale o governo israelense. Quanto à concepção do professor Marcos Nobre, soa-me como uma cessar fogo sob a mesma finalidade: conservar a legitimidade do Estado - mas por vias antibélicas (e aqui talvez me fuja a verdadeira noção de pacifismo e de sensatez da qual você sugere em sua resposta).

Dessa forma, com minha primeira pergunta pretendí ascenar para a mesma finalidade entre os posicionamentos de Marcos Nobre e os posicionamentos de Israel; ao mesmo tempo, quiz diferenciar os meios pelos quais ambos pretendem esse fim. Parece-me que em sua posição, bastante sensata diga-se de passagem, o pacifismo não seria a melhor opção. Porém, tenho como limitação de entendimento uma questão: não teria sido sua crítica ao professor Marcos Nobre uma crítica sobre os meios ao que se buscaria a paz, não à própria noção de pacifismo?

Quanto à segunda resposta estou satisfeito e digo que, se assim for, somente criaríamos mais problemas para decidir um dos lados; afinal, segundo os mesmos meios de imprensa, o Hamas guerreia contra Israel pelos mesmos motivos: contra-atacar uma exploração israelense e o consequente esmorecimento de sua cultura.

muito obrigado pelo espaço e a paciência com que divide seus pensamentos e contribuiu para minha perpétua formação.

Grande abraço,
Tiago.

Anônimo disse...

Cartas da Folha de Londrina de 13/11/2009

Faixa de Gaza

Como judeu e conhecedor dos fatos históricos que culminam na situação atual do Oriente Médio, quero congratular o professor Aguinaldo Pavão pelo seu consciente e bem posicionado artigo ''O conflito na Faixa de Gaza'' (Espaço Aberto, 11/01). Sua análise foi realista - uma verdadeira aula em meio a tanta ignorância que se vê através de veículos de comunicação que mais confundem do que elucidam o complicado tema. Naquele embate ambos os lados têm culpas e acertos. Os que estão fora deviam, ao menos, conhecer o mais profundamente possível antes de emitir pareceres e palpites - infelizes, na maior parte das vezes.

ABRAHAM SHAPIRO (diretor do instituto Brasil-Israel de difusão da cultura judaica) - Londrina

Aguinaldo Pavão disse...

Caro Tiago.
Acho que tem alguns dados sobre a história do conflito entre Israel e palestinos que você precisaria conferir, pois não estão certos. Israel não visa à destruição do povo palestino. Israel ocupava Gaza e se retirou de lá. O Hamas é um grupo terrorista que lança foguetes contra israelenses. A diferença é grande. Um se defende, outro pratica terrorismo sem qualquer compromisso com negociações e a paz.

Tiago Violante disse...

Certo,

Por gentileza, peço, a quem de fato souber, uma fonte segura onde possa me tornar conhecedor dos verdadeiros problemas no Oriente Médio.

Tiago Violante disse...

Seria a História um ponto de vista sempre contada e criada pelos mais fortes? Será que do ponto de vista do Hamas ou do Iraque, Israel e os Estados Unidos não seriam os verdadeiros terroristas?

Sinceramente desconheço essas respostas e me seria de enorme valia ter acesso a algum material que me tornassem um ser mais esclarecido quanto a verdade.

Desde já agradeço,
Tiago.

Anônimo disse...

Cartas Folha de Londrina de 14 de janeiro de 2009

Israel x Palestina
O artigo ''O conflito na Faixa de Gaza'' (Espaço Aberto, 11/01), do professor Aguinaldo Pavão, é a demonstração da real situação em que se encontra a região de Israel e Palestina. Um lado não quer a paz (Hamas) e o outro (Israel) não se incomoda em promover um massacre entre seus inimigos, até que eles se dobrem frente ao poderio militar. Vejo inúmeras manifestações de repúdio ao ato israelense, mas de nenhum movimento tentando impedir as intifadas promovidas pelos palestinos contra os civis de Israel. A paz deve ser um estado de espírito, onde não haja acusações de nenhuma das partes.

CARLOS AUGUSTO BUSSOLA (professor) - Goioerê

Marcus cesar disse...

A questão no oriente-médio é um caso mais profundo:Pode se presumir um conflito teocrático em sua essência com desdobramentos políticos e econômicos.Crianças palestinas são ensinadas a usar o próprio corpo como arma bélica,o cerco da muralha de Jericó é ensinado a crianças judias como justificativa para o massacre e limpeza étnica.
Creio que se tivesse o título:O Oriente médio-a morte da razão.Seria algo muito interessante pois as convicções de ambos os lados estão baseados em promessas de um ente divino,que na sua "agência ditatorial celestial"não está aberto a contestação!É preciso uma "overdose de razão"não só em países supersticiosos e atrasados como o Brasil,mas tb naquela região.