Abaixo, o artigo que saiu hoje no Jornal de Londrina .LEI SECA E LIBERDADE
Índices de violência no trânsito e de criminalidade podem cair acentuadamente se restringirmos a liberdade individual. Em algumas cidades brasileiras, acho que é Diadema, se tentou isso e os resultados são considerados positivos. Lá foi proibida a abertura de bares durante a madrugada e as pessoas aplaudiram dizendo que isso era um bem. Porém, eu não penso que o bem e o mal devam ser julgados pelas suas conseqüências. Se fosse assim, por que não proibir simplesmente o comércio de cigarros e bebidas? Que seja dado um ponto final ao consumo de nicotina e álcool, haja vista seu consumo trazer conseqüências indesejáveis para a saúde publica.
Por que não proibir a direção de pessoas que tiveram uma péssima noite de sono? Por que não punir as pessoas que dirigem com graus elevados de irritação devido a brigas conjugais? Como seria um teste de cansaço, um teste de grau de irritação?
Se pensarmos que a vida é o maior bem, sem qualificar o que isso significa, então sejamos coerentes e vamos instituir um toque de recolher. Aposto que a criminalidade cairá com isso. Por que as pessoas que são a favor da lei seca no trânsito não defendem o toque de recolher?
Muitos dizem que os pais agora estão tranqüilos porque seus filhos podem sair à noite com mais segurança. Sim, mas se tudo que eles querem é segurança para seus filhos, eles deveriam impedir seus filhos de sair à noite, pois de todo modo, saindo à noite, eles correm algum risco. A vida deles é o maior bem? Ou a liberdade deles também é um bem, e um bem que muitas vezes deve fazer frente à segurança? Há sentido humano em uma vida sem liberdade? Ora, é preciso admitir que a liberdade sempre envolverá risco. Seres livres cometem atos errados. E é como seres livres que devem ser responsabilizados.
Deve-se notar também que a suposta unanimidade diante da lei seca no trânsito nada diz em seu favor. Se a maioria da população é favorável à lei, isso não significa que a lei esteja certa. Se a maioria for a favor de um Estado teocrático católico, isso tornaria o Estado teocrático católico legítimo? Claro que não. Então, essa conversa de que a maioria é a favor é da lei é uma rematada tolice.
Outro ponto que me espanta é o seguinte. Muitos ficam alardeando o fato de que os índices de mortes e acidentes caíram drasticamente com a introdução da lei 11.705. Acontece que se a lei anterior recebesse o mesmo nível de fiscalização que a atual está recebendo, ela geraria certamente os mesmos efeitos que essa nova com respeito à diminuição de mortes e acidentes. Não conheço nenhum estudo que mostre o percentual de acidentes em que pessoas que consumiram um ou dois copos de cerveja estejam envolvidos. Esta lei seca no transito é simples e puramente uma agressão repulsiva à liberdade. Pobre Brasil, pobre país que tão pouco valor dá à liberdade dos indivíduos.
9 comentários:
Jornal de Londrina - Cartas
Sexta-feira, 1 de agosto de 2008, p. 3
Lei seca
Senhor Aguinaldo Pavão, li o seu Ponto de Vista a respeito da lei seca. Mas, como tudo tem os prós e os contras, eu sou a favor da lei. Veja bem, o cigarro leva à morte, os fumantes saber e a cada dias novos fumantes aparecem; matar é um crime e algumas pessoas matam; trafico é um crime e algumas pessoas o fazem. Será que aquelas pessoas que perderam seus entes queridos de forma drástica no trânsito por causa deste detalhe que é o álcool no volante concordaria com essa privação à liberdade? Quem quiser beber pode, e se quiser, até cair no chão e não agüentar se levantar, a lei permite. Só não pode é querer dirigir depois.
ENIMAR S. DA SILVA (serviços gerais em um condomínio)
Foi neste sentido que eu ataquei o pragmatismo como razão de Estado na Colômbia, há algum tempo no meu blog, Aguinaldo. Só se preocupam com estatísticas e não estão nem aí para a violação de princípios na ânsia de obter os melhores índices. É assim que se faz política hoje em dia: tudo é quantificado para se tornar capital político. Época de eleições é uma batalha de gráficos, muitas vezes, inclusive, simplesmente distorcidos (expertise do PT, aliás). Cria-se uma falsa sensação de objetividade, de racionalidade com este jogo de cena. Nada de idéias, conceitos, valores...
Abraços
É um desproposito a aclamação que fazem os indivíduos à nova lei 11.705, se quer os mesmo possuem consciência do que estão aplaudindo e como foi instituída a política daqueles que nos vetam. O aumento da fiscalização certamente faria que qualquer lei atingisse o fim esperado e esse jogo fabuloso da máquina governamental fez legitimar o poder de dominação sobre os homens. Estamos vulneráveis aos dirigentes e a corja populacional que pouco sabe sobre “ser livre”. É uma pena.
Jornal de Londrina - Cartas
Domingo, 03 de agosto de 2008, p. 3
LEI SECA
Foi com imensa preocupação que li [o artigo] publicado na edição de 31/07 [Ponto de Vista] sob o titulo "Lei seca e liberdade”, de autoria do professor Aguinaldo Pavão. Causou-me surpresa que um cidadão culto e bem formado, como parece ser o signatário do texto, confunda liberdade com responsabilidade. A lei 11.705, não somente veio tirar de circulação os “assassinos” do volante, como incutir responsabilidade àqueles que colocam em risco a vida de pessoas inocentes. Meu caro professor, o rigor necessário desta lei, está editado em todos os paises civilizados do mundo, aplaudido por especialistas em trânsito e de uma eficiência singular, demonstram as pesquisas. Um ou dois copos de cerveja, em determinadas pessoas, tem o condão de provocar o comprometimento dos reflexos, o que pode ser fatal. Meu caro professor, peço que reveja seus conceitos porque a liberdade de matar ou ainda de fazer cada um de nós aquilo que bem entende, significa “anarquia” o que devemos todos combater sempre, notadamente aqueles que tem a nobre função de ensinar.
SERGIO GONIK (advogado)
Professor, me parece que alguns não compreenderam o artigo...
Abraço
Olá Aguinaldo.
Considerando os contras do teu artigo redigidos acima pelo sr. advogado Sergio Gonik, acredito que aqui no Brasil ocorre muitas complicações de se pensar o simples. A polícia existe justamente para que haja a prevenção da anarquia, da desordem e etc. Se existisse uma polícia eficiente para fazer valer uma lei que defendesse a liberdade de cada indivíduo, então não seria necessário apelar para leis mais abusivas como a lei que agora nos regula. Um exemplo é como funciona a lei de trânsito nos EUA. A porcentagem de álcool no sangue é bem maior que a atual taxa aprovada no Brasil, todavia as penas são mais severas para quem vai contra a lei e há maior eficiência no trabalho da polícia.
Nós garantimos a segurança de alguém aumentando os agentes protetores de nossa liberdade e nossa vida - das nossas propriedades - e não quando restringimos mais a nossa liberdade mantendo fixo os agentes protetores.
Outra coisa é a falácia da estatística. Vi assombrado a relação que tem sido feita nos maiores telejornais. Chegaram a comparar a imposição da lei seca com a diminuição das tentativas de homicídio! Isso não tem um pingo de rigor científico. Sinceramente eu acredito que deveriam ser processados esses telejornais por saírem propagando essas besteiras que realmente são nocivas aos indivíduos mais desinformados.
A Lei Seca em Diadema é invensão do Instituto Fernand Braudel, o mesmo que, 7 anos depois da implantação da lei naquela cidade, publicou um relatório avaliando a tal lei como ineficiente na diminuição da criminalidade e da violência.
Fora isso, beber é melhor que dirigir e já vislumbro a crise na industria automobilística! :)
Professor, eu concordo quando diz que ao aplicar o mesmo grau de fiscalização a lei anterior os efeitos seriam os mesmos.
Talvez porque os resultados são obtidos através do temor da punição, assim os indivíduos punidos servem de exemplo para evitar que outros façam o mesmo.
Contudo, o que acontece quando retiramos essa vistoria, será que haveria tanto temor em beber um simples copo de cerveja em um restaurante? Os resultados será os mesmos quando a fiscalização diminuir?
Se a inspeção anterior fosse aplicada no mesmo grau que a atual, talvez não precisaríamos temer uma batidinha apenas uma no final de semana.
Quando houver um menor grau de fiscalização e por consequência
menor temor a punição,essa lei se sustentaria?
Aguinaldo, seu artigo é irrepreensível. Parabéns.
Paulo Briguet - Londrina.
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