
Segue abaixo a entrevista que dei ao Blog Ética na Rede (alunas de Jornalismo da Unopar). O título da entrevista “Sob o ponto de vista de um filósofo ...” é, como se pode notar, bem jornalístico. (Ah, a inocência).
Sob o ponto de vista de um filósofo ...
O professor do curso de Filosofia da UEL, Aguinaldo Pavão, concedeu entrevista, por e-mail, ao blog Ética na Rede. Ele é mestre em Filosofia pela UFRGS, onde produziu a dissertação com o tema "Liberdade e Moralidade em Kant". É também doutor em Filosofia pela Unicamp, sendo autor da tese “O mal moral em Kant".
Um pouco do pensamento do professor pode ser lido em: http://agguinaldopavao.blogspot.com
Qual o papel da mídia na construção da verdade?
Não sei. Não penso que a verdade seja construída. Acho que a verdade significa apenas a correspondência entre o que afirmamos e a realidade. Nós não a construímos. Nossa linguagem procura afirmá-la e a nossa inteligência procura descobri-la. Por isso, o papel da mídia com respeito à verdade é de procurá-la, e talvez cultuá-la. Nesse sentido, os jornalistas deveriam procurar menos a confirmação de suas opiniões e trazer mais a verdade, a qual, por ventura, pode confrontar-se com suas crenças e ideologias. Evidentemente, também é preciso espaço, para que o próprio jornalista emita sua opinião, como qualquer pessoa que trata seja de que assunto for.
Existe consciência ética na imprensa?
Todos os seres humanos têm consciência ética. Logo, reconhecendo que a atividade da imprensa é feita por seres humanos, parece-me evidente que a resposta deve ser afirmativa. Mas isso não significa, como não pode significar para as demais ações e atividades humanas, que as pessoas por terem consciência ética agirão de acordo com essa consciência. Como seres humanos, somos moralmente imperfeitos. Essa é uma verdade trivial.
Como o senhor analisa a questão do jornalismo buscar constantemente a verdade?
Concordo que o jornalismo deve buscar constantemente a verdade; mas acho isso pacífico.
Sob o ponto de vista de algum filósofo, como o senhor descreveria a questão da mídia exibir em alguns casos uma realidade fragmentada e maquiada?
Os filósofos que estudo, como Aristóteles, Hobbes e Kant, não puderam se pronunciar diretamente acerca da mídia, por terem chegado ao mundo antes dela. Mas não vejo nenhum problema na exibição de realidade fragmentada e maquiada. Fragmentada a realidade sempre será. O que seria uma realidade não fragmentária? Certamente um conceito metafísico e dogmático. Maquiada também não vejo problemas, pois é uma forma de vender mais jornais, ter mais anunciantes e agradar ao gosto médio dos consumidores de informação. É assim que caminha a humanidade. Temos de reconhecer que um proprietário de meio de comunicação é um indivíduo que visa ao lucro e não há nada de errado em buscar o lucro. Ao contrário, como apregoava Mandeville vícios privados geram benefícios públicos. São motivações, em geral, egoístas que geram empregos e produzem riqueza. Para que o negócio televisão, rádio, jornal prospere, é preciso audiência (e leitores no caso do jornal). Sendo assim, parece-me natural que índices de audiências e pesquisas qualitativas pautem as programações e o noticiário em geral. Os veículos de comunicação precisam de mercado e da ampliação deles.
O que falta no jornalismo da atualidade, enquanto “dever”?
Parece que falta ao jornalismo, e talvez sempre faltará, profundidade.
Até que ponto o leitor deve questionar o que é verdade, já que as notícias são tratadas como espetáculo muitas vezes?
O leitor deve questionar tudo, sempre. Ele é o maior responsável por assumir como verdade o que é apenas versão, ou assumir como informação o que é apenas espetáculo.
Os fins justificam os meios, quando se trata da apuração dos fatos?
A tese de que os fins justificam os meios traz consigo a idéia de que não existe ação que, por si só, possa ser considerada moralmente reprovável. Ora, em geral as pessoas concordam que, por exemplo, usar um ser humano simplesmente como um meio é imoral. Parece-me que estão certas. Sendo assim, é claro que os fins não justificam os meios. E não importa se se trata de apurar os fatos ou apenas buscar o prazer.
É possível aplicar os preceitos filosóficos no jornalismo?
Não acredito que existam autênticos preceitos filosóficos. A filosofia apenas procura esclarecer alguns conceitos relativos à existência humana. Portanto, penso que é impossível aplicar os preceitos filosóficos, pela simples razão de que não acredito em preceitos filosóficos.
Por Karen Krinchev
4 comentários:
Caro Aguinaldo, não acredito que estou tanto tempo na uel e ainda não tive a felicidade de poder te conhecer pessoalmente. A primeira resposta que você deu nesta entrevista é ............ sem palavras. é exatamente isto que estou descobrindo agora depois de me entupir todos esses anos com autores de esquerda e de nietzsche. Você não faz idéia da dificuldade que estou passando para entrar em contato com aristóteles, platão, mario ferreira dos santos, eric voegelin... esses caras que hj reconheço, fazem filosofia de verdade....
a descoberta foi tarde, mas nem tudo está perdido. Saiba que estou gostando muito do seu blog e espero que possamos trocar livros, discussões e idéias pessoalmente algum dia, creio que será muito proveitoso.
forte abraço
COMENTÁRIOS
Como já disse, não aceito comentários anônimos. Tampouco aceito comentários com um nome que não me permita saber quem é. Afora isso, qualquer crítica será públicada.
Achei interessante essa entrevista e gostaria de fazer um apontamento. Concordo com a idéia de que pela natureza do jornalismo, seu resultado será sempre parcial, insuficiente, nunca como a profundidade de um livro, por exemplo. Mas discordo quando você menciona o fato de que não há problemas numa realidade maquiada produzida pelos jornais: "... não vejo problemas, pois é uma forma de vender mais jornais, ter mais anunciantes e agradar ao gosto médio dos consumidores de informação. É assim que caminha a humanidade. Temos de reconhecer que um proprietário de meio de comunicação é um indivíduo que visa ao lucro e não há nada de errado em buscar o lucro."
Eu discordo porque se pensarmos que o cidadão tem o que a nossa Constituição chama de 'direito a informação', então o dono do jornal não pode (ou pelo menos não poderia)caprichosa e irresponsavelmente pensar apenas no lucro e esquecer da qualidade e da verdade do que publica. O médico pode querer ganhar dinheiro, mas não pode olvidar as regras a que sua profissão está sujeita. Da mesma forma o jornalista. Foi Habermas que há um tempo atrás levantou discussão semelhante, ao se preocupar com o que aconteceria se o "Süddeutsche Zeitung" caísse nas mãos de investidores privados ou conglomerados de mídia. Eu reconheço que não há "clean media". Realmente não há, porque sempre informações distorcidas ou tendenciosas, intencional ou não intencionalmente vão surgir. Porém parece que um grau determinado de qualidade e de responsabilidade são imprescindíveis. Nossa Lei maior aponta para isso. Do contrário, os jornais se tornariam tablóides, ou encartes de propaganda.
Abraços.
Não acho que apenas as informações jornalísticas trazem o problema da maquiagem. Várias práticas médicas e psicológicas - são as que mais conheço - são também um show de moda, com maquiagem, purpurina, sons e odores, tudo para melhor agradar a clientela. Talvez a coisa seja um pouco mais grave aqui porque, nesta tapeação grosseira, alguém pode se dar verdadeiramente mal - pode morrer, por exemplo - e não apenas tornar-se mal informado.
Tal clientela que banca tais práticas clínicas é a mesma que compra estes jornais e absorve informações maquiadas de tantas outras fontes. Logo, o problema não está nos meios de comunicação que maqueiam seu produto - pois não são apenas eles que o fazem com vistas em lucrar. O problema está do outro lado, e é, a meu ver, bem mais difícil de ser solucionado: o que faz com que as pessoas se deixem levar assim, por maquiagens tão horrorosas? Para mim, este é o ponto.
Um abraço Aguinaldo!
Daniel Maireno
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