07 maio 2008

Maconha e liberdade

Artigo publicado hoje na Folha de Londrina
Os recentes acontecimentos em torno da chamada marcha da maconha representam uma bela oportunidade para pensarmos sobre a legalização das drogas. Fazer apologia do uso de drogas ilícitas é considerado um crime na nossa querida pátria amada. Acho, evidentemente, que o Estado deve fazer com que as leis sejam cumpridas, embora não tenha certeza se realmente essa marcha implicava apologia ou não. De todo modo, o ponto interessante é o seguinte: que razões temos para proibir o uso e o comércio das drogas? Muitas, talvez. Porém, não vejo nenhuma razão moral para isso. E considero que a principal razão para proibir alguma coisa deve ser moral. Há alguns anos atrás me manifestei sobre esse assunto. Considero agora pertinente retomar aqueles argumentos.

A meu ver, é difícil perceber as razões morais para que o Estado determine a proibição do consumo, e mesmo do comércio, das drogas. Falo de razões morais justamente para deixar claro que me interessa muito pouco a discussão conseqüencialista desse tema. Na discussão conseqüencialista, são evocados os efeitos sociais da liberalização das drogas, dando-se ênfase geralmente sobre os dados estatísticos acerca das conseqüências para a saúde dos usuários e para crimes cometidos sob influência das drogas ilícitas. Sinceramente, acredito que esse seja um ponto lateral. Julgo muito mais importante fazer um debate acerca dos princípios que podem suportar a tese da criminalização ou descriminalização das drogas.

Stuart Mill foi muito feliz ao afirmar que “o único propósito com o qual se legitima o exercício do poder sobre algum membro de uma comunidade civilizada contra a sua vontade é impedir dano a outrem. [...] O indivíduo não pode legitimamente ser compelido a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, porque tal seja melhor para ele, porque tal o faça mais feliz, porque na opinião dos outros tal seja sábio ou reto”.

De fato, à sociedade e ao Estado não se deve conceder a autoridade para decidir as coisas que dizem respeito exclusivamente ao indivíduo. Se fosse concedida essa autoridade, seríamos levados à conclusão de que todos os membros da sociedade são crianças e assim devem ser governados. Ora, a tutela moral da sociedade nos assuntos que dizem respeito apenas ao indivíduo é indevida. É indevida porque a felicidade, finalidade irrenunciável dos homens, deve ser perseguida por eles mesmos. Como dizia Kant, com relação à felicidade, “nenhum princípio universalmente válido se pode aduzir como lei”. A felicidade sempre estará referida ao particularismo desejante dos indivíduos. Ao Estado cabe garantir condições para que a busca autônoma da felicidade de um não impeça a busca do outro. É digno de nota que tanto Kant como Stuart Mill tenham sido críticos do que eles chamavam de governo paternal.

Sejam as suas decisões sábias ou estúpidas, é um direito que os indivíduos têm de escolher cursos de ações que apenas a eles dizem respeito. Como gastar o meu dinheiro, que prazeres desejo fruir são assuntos particulares e objetos de minha apreciação. A restrição, nesse caso, deve ser apenas uma: a não interferência no legítimo exercício da liberdade de outrem. Portanto, o Estado excede o poder que lhe compete ao praticar a ingerência na esfera das ações que não impedem o exercício da liberdade alheia.

Entre sacrificar a esfera de autonomia individual, cujo exercício não lesa diretamente outra pessoa, e a sociedade sofrer alguma desvantagem em função da liberdade humana, a opção pela segunda alternativa me parece se impor claramente. É evidente que isso não significa que não se tenha muitas vezes de se considerar salutar campanhas estatais e sociais de dissuasão. Visar à dissuasão é uma coisa, proibir, impedir coercitivamente a liberdade individual é outra bem diferente e eu não consigo ver como isso pode ser sustentado moralmente.

É claro que apoios teóricos para os proibicionistas não faltam. Talvez Hegel pudesse ajudá-los. O autor da Filosofia do Direito defendia que o coletivo tem uma ascendência normativa sobre o indivíduo. Uma discussão com Hegel seria muito mais interessante do que uma consulta aos dados do IBGE ou de alguma Secretaria de Segurança.

Algumas pessoas se revoltam com manifestações favoráveis à legalização do consumo da maconha alegando que há coisas mais importantes para reivindicar. Isso é apenas parcialmente razoável. Felizmente não existe uma agenda socialmente obrigatória que determine o que deve primeiro ser reclamado. As pessoas fazem as reivindicações que quiserem. Esse é um direito dos indivíduos. Quem não gostar, que argumente contra. Mas não pretenda que seja ilegítimo o exercício do protesto contra leis por outros consideradas injustas. Que as leis sejam obedecidas, mas que não sejam cegamente obedecidas.

3 comentários:

Anônimo disse...

Aguinaldo,
Gostei bastante do texto na Folha de hoje. Gostaria de colocar em discussão o seguinte: seu argumento deixa claro que questões morais e questões que levam em conta as consequências são coisas distintas. Não acredito que essa distinção seja correta. Você citou Mill. O utilitarismo (embora haja diversas maneiras de defini-lo) é uma teoria moral/política tipicamente consequencialista. Talvez a mais influente no último século. O conseqüencialismo faz com que uma ação, regra ou instituição seja julgada pelas conseqüências que produz. A avaliação de algo depende decisivamente de seu resultado, em detrimento da intenção ou do motivo. Para o utilitarismo clássico, é melhor a conduta que maximiza o prazer/felicidade. Logo, leva-se em conta a consequência. É interressante ainda notar que o objetivo de levar em conta a consequência é justamente evitar proibições morais arbitrárias, em que não é possível apontar conseqüências deletérias a quem quer que seja...

abs

Gabriel

Aguinaldo Pavão disse...

Gabriel.
Obrigado pela visita e pelo comentário. Você toca num ponto difícil. Mantenho a tese de que o consequencialismo simplesmente solapa as bases do juízo moral. Os seres humanos são julgados moralmente pelos princípios que adotam como móbiles de suas ações. As conseqüências de nossas ações escapam de nosso controle, haja vista nossa irredutível e humana improvidência. Concordo que o utilitarismo, especialmente o de Bentham, tem as implicações que você aponta. Já Stuart-Mill, embora seja evidentemente também um utilitarista, não me parece ter uma posição muito clara sobre se a liberdade, como ele defende em On Liberty, deveria sofrer restrições tendo em vista prováveis conseqüências conflitantes com o princípio que ele esposa. Você, que conhece melhor essa tradição, poderia me esclarecer melhor o pensamento de Stuart-Mill sobre esse ponto. Reconheço, assim, o problema que você levanta, mas acho que o argumento em defesa da liberdade individual somente pode valer em termos anticonseqüencialistas.

Anônimo disse...

Caro Pavão, eu com relação a liberação do uso e venda de drogas ilicitas tenho uma posição pratica e consisa. Acho que estamos ¨complicando¨ o tema demais não digo isso com relação ao seu texto que foi uma bela exposição, mais sim com relação ao estado e a sociedade em geral. Acredito que com relação a este tema devemos nos nortear por dois caminhos: 1) sou favoravel ao uso e venda das drogas por ser algo que leva em consideração a liberdade do ser humano. Ele tem o direito de fazer o que desejar com o seu corpo e sua vida, desde que não prejudique o outro. essa é uma premissa ditada ( você sabe melhor do que eu isso) desde o seculo XVI por Jonh Locke e os liberais, passando por Kant e Russeau no seculo XVIII até a nossa ¨modernidade¨. As pessoas deixaram de ter aquela postura medievalista, tendo esse ¨privilegio¨somente alguns que insistem em ter essa visão por pura hipocrisia ou porque tem algum lucro com isso. 2) Sou favoravel num ponto economico^o governo teria os mesmos lucros que tem com as ¨souza cruz e AMBEVIS¨da vida. Dando a opção aos consumidores de comprar ou não.
A principio pode parecer ridicula essa posição, mais ela é a mais conciliatoria possivel pois não ira ¨ferir a libererdade individual e coletiva¨e deixando todos ¨felizes para sempre¨. Usando uma exoressão de contos de fadas. Mais acredito que seja necesario que se debata isso de forma mais apurada e que, os dois lados sejam ouvidos igualmnente.
Concluo dizendo o seguinto não sou usuario de drogas, esteriotipo esse qu é dado a todos os cientistas sociais, mais sou a favor da liberdade do outro da measma maneira que sou favoravel a minha. Da mesma maneira que quero que seja liberada o uso das celulas tronco para corrigir minha deficiencia, sou favoravel à liberdade das pesoas terem prazer que lhe façam bem.

ALMIR ESCATAMBULO
cientista social