Por que sofrer com mais uma derrota do Inter? Porque tenho paixão pelo Inter. Mas a resposta não me satisfaz. Por que eu deveria sentir paixão por um time de futebol? É verdade que também não compreendo bem porque eu sinto paixão por uma mulher e não por outra. Porém isso é menos incompreensível. Na paixão amorosa há elementos biológicos. Eu sei pouco sobre a razão de sentir paixão por uma mulher, mas sei que há uma razão para sentir paixão por mulheres. Agora, sentir paixão por um clube de futebol ... Nenhum jogador do Inter sabe da minha existência. O presidente do clube não sabe que eu existo. Eu não consigo estabelecer nexos causais com o Inter. Se torcer por sua vitória, isso não terá efeito. Se quiser que troquem de jogador, poderei gritar no estádio (mas vou raríssimas vezes ao Beira-Rio - é claro que, quando estive em Porto Alegre, não perdi a oportunidade de assistir ao jogo contra o Vasco). Talvez alguém acredite que a torcida conduza seu time à vitória quando canta e “empurra” o time para o ataque. Mas essa idéia não me agrada, pois eu tenho de me dissolver na torcida para poder acreditar em tal efeito. E não me agrada ter uma compreensão tão pequena das razões por que fico triste quando o Inter perde.
Logo a pós o jogo do Flamengo, ontem, nem consegui olhar para os gols do início da rodada que a TV anunciava. Não seria mais sensato uma decisão como esta: “não darei mais a mínima atenção ao futebol”. Imaginem, se estou escrevendo um texto sobre os móbiles no Cânon da Crítica da Razão Pura e faço uma pausa para ouvir o jogo do Inter e ele perde, certamente também perderei meu entusiasmo com o texto e minhas fracas inspirações intelectuais fugirão! É claro que poderia estender isso à paixão amorosa. Mas eu interajo verdadeiramente com o objeto de minha paixão amorosa. Se ela diz não me querer, eu posso gritar bem perto de seus ouvidos, ou se isso não for possível, encher sua caixa de e-mails com mensagens chorosas, importuná-la com ligações. Mas com o Inter, nem se trata dele não me querer, pois ele, num certo sentido, nem sabe que eu existo. E eu sofro tanto!