Uma versão reduzida do texto abaixo deverá sair nos próximos dias no Jornal de Londrina.A mim parece uma grande bobagem pessoas ficarem reclamando e, pior, achando que estão filosofando, quando dizem que nos tempos atuais se prioriza o ter e não o ser. Dizem, esses chorosos, que o importante é o que a pessoa é, não o que ela tem. Se elas dão um passo além e procuram explicar o que estão querendo dizer, geralmente ouviremos pérolas tais como esta: Joana é mesquinha pois namora João interessada no que João tem, não no que ele é. Mas o que João é, ou o que João poderia ser sem o que ele tem? Digamos que João tenha riqueza e que Maria critica Joana porque Joana estaria junto de João devido à riqueza dele. Por que Maria reclama disso? O que há de errado nisso? Não é razoável que Joana esteja junto de João por esse motivo? Eu acho que sim. Talvez não seja tão nobre. Mas aí é outra discussão. Nesse caso, seria uma discussão sobre a nobreza dos motivos e daquilo que alguém tem, e não simplesmente sobre ter.
Vamos supor que a chorona Maria louvasse a nobre alma de Júlia que namora Paulo porque Paulo é inteligente, carinhoso e virtuoso. Assim, pensaria a inocente Maria: Júlia interessa-se pelo que a pessoa é, não pelo que ela tem. Vejam como Júlia é bonitinha. Mas isso não parece ser obviamente correto. Posso afirmar que Julia se interessa pela inteligência, carinho e virtude que Paulo tem. Logo, Júlia se interessa pelo ter e não pelo ser. Na verdade, é impossível, num certo sentido, sabermos o que alguém é. Talvez só possamos saber o que alguém tem. E, evidentemente, apenas um saber parcial sobre o que alguém tem.
Contudo, contra o que estou argumentando poder-se-ia dizer: o ser pode significar ser humano. Mas não se diz “ele é humano” por que ele tem algo humano? Talvez. Mas aqui tocamos num ponto interessante. A meu ver, quando dizemos ele é um ser humano conferimos sim um valor que, num certo sentido, é independente do que a pessoa tem. Mas se trata mais de conferir um valor moralmente negativo ou, dito de outro modo, de conferir dignidade moral à pessoa, de reconhecer que ela merece respeito. Eu não estou aqui interessado justamente nesse ponto. Esse ponto apenas realça o fato de que a pessoa ficaria com o seu valor mínimo. Mas o valor mínimo, isto é, o valor moral, não é suficiente para admirarmos alguém. E estou preocupado com o valor positivo, isto é, o apreço, a admiração e atração que alguém exerce sobre nós. Naturalmente, não devemos diminuir nosso respeito por alguém em proporção ao grau do valor positivo e não moral que conferimos a ela.

Uma possível alegação em favor da relevância de distinguirmos entre ser e ter consiste em chamar a atenção para o fato de que o que você tem, você pode perder e o que você é, você não pode perder. Mas dizemos: “você é jovem”. Acho que raramente ouvimos, em vez de “você é jovem”, “você tem juventude”. Se o critério fosse o que perdemos, deveríamos dizer que alguém tem juventude, não que alguém é jovem. Percebam que essa reflexão pode facilmente deslizar para áreas de mera análise da linguagem comum. Não é exatamente esse o meu propósito. Vou assumir que a distinção entre ser e ter com base na possibilidade de perda, ou com base no que depende e do que não depende de nossa vontade é inicialmente plausível. Mas será além de plausível, correta? Posso dizer que tenho coisas com mais constância. Por exemplo, se tenho virtudes morais, tenho, supostamente, algo mais permanente do que ter um castelo, que pode ser atacado, destruído, confiscado, incendiado. Como é que alguém vai confiscar minhas virtudes morais? Meu carro pode ser roubado, mas quem poderia dizer: “passe suas virtudes morais, ou levará um tiro na cabeça”? Mas talvez alguém poderia me seqüestrar e levar-me para um local em que seria feita uma cirurgia por meio da qual eu perderia meu senso moral. Vamos imaginar que o meu senso moral pudesse ser copiado e transladado para outra pessoa e eu ficasse destituído dele. Que valor eu teria?
E se alguém diz: ele não tem riqueza, mas é inteligente. Ora, e se eu sofresse um acidente e ficasse mentalmente incapacitado de exibir minha antiga inteligência? Meu valor seria o mesmo? Pergunto não sobre o valor moral, mas o valor que tem alguém que produz em nós admiração.
Quem é mais digno de admiração, uma pessoa inteligente, virtuosa e rica ou uma pessoa inteligente, virtuosa e pobre? (Estou supondo que elas empatam em inteligência e virtude).Vejam, ambas são moralmente boas e inteligentes. Mas uma é rica e a outra é pobre. Por que deveríamos criticar as pessoas que se sentem mais atraídas pela primeira pessoa? Não é natural? Mesmo que a riqueza que ela tem não tenha sido fruto direto de sua diligência e vontade. Basta imaginar outro exemplo: uma pessoa inteligente, virtuosa, rica e bela e outra inteligente, virtuosa, rica e feia. A primeira terá em geral vantagens. E sua beleza pode ser tranqüilamente creditada à generosidade da natureza. É notável que admiramos nos outros qualidades que não dependem de sua vontade. Mais do que admiração, louvamos e amamos muitas vezes essas qualidades. Como dizia Hume, não podemos supor que esteja ao alcance de qualquer homem, a qualquer momento, atingir toda espécie de beleza espiritual, mais do que esta a seu alcance atingir beleza física exterior. (Na maioria dos casos não há Ivo Pitangui para caráter, nem para o corpo).

Mas Schopenhauer parece pensar diferente. Em seus Aphorismen zur Lebensweisheit se lê: “o que uma pessoa é importa muito mais para a sua felicidade do que o que ela tem ou o que representa”. Ele também afirma que “para a felicidade de nossa vida, aquilo que nós somos, nossa personalidade é o principal e o essencial”. Mas acho que não divergiria de Schopenhauer. Porque não estou pensando na felicidade do sujeito, mas no valor que ele tem diante dos outros. Sendo assim, prefiro Hobbes. “E tal como nas outras coisas, também no homem não é o vendedor, mas o comprador quem determina o preço. Porque mesmo que um homem (como muitos fazem) atribua a si mesmo o mais alto valor possível, apesar disso seu verdadeiro valor não seria superior ao que lhe for atribuído pelos outros”.
Em suma, acho que, em geral, esse papo de que o importante é o que a pessoa é, não o que ela tem é um papo altamente atrativo para os derrotados.
3 comentários:
Professor.
Não gostaram muito do seu artigo no JL, a se julgar pelas cartas, de ontem e de hoje. Eu achei muito interessante, principalmente o texto do Blog. Acho que se eles tivessem lifo o Blog nao diriam o que dizem. Não sei. Mas acho que teriam mudar o discurso.
Abraço.
Oi Ulisses.
Li as cartas. Uma senhora fala da responsabilidade dos educadores na luta contra o consumismo. Eu não vejo nada de errado se alguém quiser ter 500 pares de sapatos e ir todo dia ao Shopping gastar R$ 10 mil.Um outro fala em materialismo. Ele pensa que materialismo tem conseqüências morais nefastas. Algo totalmente equivocado.
Abraço.
ESCLAREÇO.
Já escrevi que este Blog nao aceita comentários anônimos. Quem tem opinião deve ter a CORAGEM de se ideintificar. Olhe no olho e diga o que pensa sem medo.
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