
Supondo que tenham sido pai e madrasta os responsáveis pela morte da menina Isabella, como devemos encarar esse fato? Digo “supondo que sejam”, pois talvez não tenham sido eles, mas para o meu ponto a possibilidade de que tenham sido eles é suficiente (confesso que torço para que não tenham sido eles). Bem, dizemos que é um crime abominável, cruel, monstruoso. Sim, mas talvez possamos enquadrar esse fato alegando, como o fez Renato Mezan no Mais do último domingo, que inconscientemente também desejamos - a exemplo do pai de Isabella, caso ele seja o assassino - prejudicar, pouco ou muito, os pequenos que dependem de nós. Ora isso que Mezan afirma é apenas uma das asneiras psicanalíticas. Que estudos sérios corroboram essa hipótese? Parece-me mais plausível pensar que isso pode, em abstrato, ocorrer com qualquer ser humano. Digo em abstrato, porque certamente as circunstancias ambientais, o caráter, o temperamento e outros fatores contribuem para que os seres humanos em geral, felizmente, ajam de modo a que tais ocorrências sejam pouco prováveis.
Concordo com Hobbes quando ele afirma que todos somos iguais em razão do fato de todos sermos assassinos em potencial. Matar alguém por cólera é algo que acontece no trânsito, nos bares, em ambientes familiares e demais situações da intersubjetividade humana. Agora, matar uma filha por descontrole emocional, eis algo bem raro e que nos causa repugnância moral. Não é o desejo inconsciente (do qual só sabem os freudianos) que se exterioriza em ações cruéis. É o lado obscuro, negro da condição humana. Penso em algo mais simples, algo como uma escuridão normativa que irrompe na mente e pode tornar um pai assassino de seu filho.
O que mais me perturba, porém, é um pai fazer isso e não se suicidar em seguida. Ou não ter um acesso de loucura e sair gritando “fui eu. Eu sou o monstro”. Certamente planejar uma defesa com base na não conclusividade de perícias é um direito sagrado de quem é acusado de alguma coisa. Mas moralmente alguém conviver com a culpa por ter matado a própria filha e não confessar, isso já me parece forte demais. É claro que é humanamente compreensível. Acho que tudo que seres humanos fazem é humanamente compreensível. Somos médicos e monstros. Felizmente, a maioria esmagadora dos mamíferos humanos consegue impedir que Mr. Hyde saia pelas ruas à noite.
9 comentários:
Caro Aguinaldo,
meu nome é Guilherme Bordonal, sou graduado em História pela UEL e estou fazendo o mestrado em História Social por lá. Sou orientando do Gabriel Giannattásio. Nos corredores da universidade recebi de um amigo a indicação do seu blog. Fiquei surpreso com os conteúdos que encontrei por aqui. Devo parabenizá-lo pela sagacidade de suas idéias. Nunca imaginei que na UEL pudesse ter um professor como essas idéias.
1- As observações que vc faz sobre Nietzsche são coerentes. Estou lendo um filósofo que se chama Eric Voegelin e um dos apontamentos que ele faz sobre Nietzsche é de que é impossível analisá-lo fazendo uso da própria linguagem que ele utiliza. Na minha dissertação estou estudando o Zaratustra e encontro essa dificuldade. De que valeria escrever na dissertação que eu acredito em um deus que dança ou chegasse na frente da banca e cantasse como o próprio Nietzsche sugere. Para Voegelin as mudanças de linguagens promovidas por Nietzsche inviabilizam qualquer apreensão da realidade pondo fim ao exercício filosófico, que é isto que vc fala em seu texto: em Nietzsche não é possível argumentar muitas vezes.
2- Sobre o Olavo de Carvalho tb concordo em partes com o que vc escreveu. às vezes ele se equivoca por tentar defender com todas as suas forças sua religião. Mas existem aspectos em seus textos que superam esses equívocos e acredito que devamos priorizá-los. As denúncias que ele faz sobre o Foro de São Paulo não podem passar batidas. Fui conferir as Atas do Foro e vi que ele não exagerou em nada no que disse. A base de argumentos do Olavo está muito bem documentada. AS ligações que ele faz do pensamento revolucionário com as práticas adotadas pela esquerda na América Latina hj são pertinentes.
3-Sobre seu discurso pela luta da liberdade concordo com tudo que li no blog.
4- Estou instigado a ler mais os pensadores conservadores, minha graduação foi deficiente nestes aspectos, só li autores de esquerda. Estou encontrando muitas dificuldades para encontrar textos. Os principais conservadores americanos não são traduzidos no Brasil. Tem um monte de professor, jornalista que fala mal do capitalismo, da direita, do pensamento conservador e tal, mas agora estou vendo que se alguém pedir para esses críticos citarem três autores conservadores ele não conseguem. Estou importando alguns livros para poder saber mais sobre o conservadorismo.
No mais, parabéns pelo blog, continue escrevendo e vou passá-lo para alguns amigos meus que se interessam por esses assuntos.
tomo a liberade de te passar o endereço do meu blog: www.atonal-atonal.blogspot.com
Professor.
Assisti a entrevista do casal ao Fantástico. Você assistiu? Eu acredito que sejam eles os assassinos. Um pai que perde a filha e é acusado injtsmanete de ser o assassino tem reações diversas. deveria ficar indignado. Mas não. O pai está calmo demais.Abraço.
Guilherme.
Obrigado pela visita e comentário.
Abraço.
Oi Ulisses
Obrigado pelo comentário. Assisti sim. Se bem que não chamo de entrevista, pois o repórter foi excessivamente dócil com o pai e a madrasta. Todavia, discordo de você. Não tenho convicção de que eles sejam os culpados. Provavelmente tenham sido eles. Mas eu tenho dúvidas. É intrigante a insistência deles na inocência. Por que não confessam? O que eles pretendem, caso sejam os assassinos, ganhar com a negação? É claro que é um cálculo. Tem alguns ganhos. Mas não consigo ver claramente. Por certo, o mais intrigante é a suposição de que não tendo sido eles suas reações não sejam aquelas que esperaríamos de inocentes sendo acusados de matarem sua filha. Por enquanto, são inocentes. Até prova em contrario. Eu acho que os laudos não provam cabalmente que eles são culpados embora, repito, seja improvável a inocência deles. Improvável, mas não impossível.
Abraço.
Aguinaldo, vc não recebeu meu comentário? É o segundo blog que comento e não aparece o meu comentário. Da próxima vez, faço outro. 1 beijo
Carina.
Eu não recebi outro comentáario teu a não ser o comentário acima, que postei agora. Por favor, escreva novamente. Este blog não pode perder uma opinião tão preciosa.
Beijos.
Só o júri poderá avaliar devidamente se os laudos são confiáveis (talvez, a defesa tente contestá-los com seus próprios peritos) e se demonstram mesmo tudo que temos lido na mídia (eu não me espantaria se o júri viesse a saber que o caso da promotoria não é tão forte assim tendo acesso à sua completude). Entretanto, se os laudos não puderem ser postos em dúvida e se a imprensa não está exagerando e distorcendo os fatos ao relatá-los (o que, repito, nada me espantaria), então o casal deve ser condenado pela falta de dúvida razoável, já que a defesa não teria uma teoria paralela que explicasse as evidências, nos depoimentos tal como chegam a nós até o momento, os dois acusados simplesmente dizem que as evidências não têm explicação e lançam, eles sim, uma acusação totalmente vaga e desprovida de base factual.
Abraços
Andrea
Lá vou eu tentar postar o comentário, mais uma vez. Mas antes, preciso dizer: adorei o seu blog, Aguinaldo, tão bom poder ler você!
Bom, no meu trabalho esse tipo de caso não é tão raro quanto eu gostaria, e todas as vezes eu vejo o horror e a perplexidade quando a culpa (o sentimento de) não está lá causando um sofrimento; essa ausência aparece como mais terrível que o ato em si.
Conhecemos bem a culpa e até o conviver com ela, mas quando ela não está... isso é que não sei se é humanamente compreensível. Não será por isso que dizemos que alguém é um monstro?
Beijinho!
Desculpem pelo meu último comentário, pois tive que desligar o computador e finalizei rapidamente, sem ler o que havia escrito, assim, ficou confuso (mais que o normal).
De todo modo, estou postando de novo só para concordar com o post da Luciana Bertini. Tanto concordo que, coincidentemente, estou postando justamente sobre isso no meu blog. Mais especificamente, sobre a questão da culpa.
Abraços,
Andrea
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