Existe no Brasil, na nossa querida pátria amada, idolatrada, salve, salve, um movimento denominado “Movimento Propaganda Sem Bebida” de uma tal "Aliança Cidadã pelo Controle do Álcool". Trata-se, de uma “articulação de entidades da sociedade civil, sem personalidade jurídica e sem fins lucrativos, que reúne igrejas, universidades, serviços de saúde, entidades de defesa do consumidor, entidades médicas, conselhos profissionais, sindicatos e ONGs, que trabalham com dependência química, grupos de apoio e auto-ajuda, entidades de defesa de portadores de patologias, dentre outras” (Que bela e sublime articulação, hein!). Essa majestosa turma luta pela “a aprovação de legislação que limite a publicidade de álcool nos meios de comunicação e em eventos esportivos, culturais e sociais”. Vejam http://www.uniad.org.br/asp/acca.asp Embora eles falem de limitação da publicidade, parece-me que o movimento não veria com maus olhos se fosse aprovada uma lei que simplesmente proibisse a propaganda de bebidas alcoólicas. A propósito, o movimento é chamado de “propaganda sem bebida”. Sou não apenas contra a proibição, mas também contra a limitação de propaganda das drogas lícitas em geral. (Como devem saber sou contra a proibição do comércio e consumo de qualquer droga). Bem, mas aqui quero apenas tocar no ponto relativo à publicidade de bebidas. Muitos protestam contra a natureza manipulatória da publicidade. Para mim, esse papo não vale 2 mil réis.
É coerente permitir o comércio de cervejas (por exemplo) e proibir a sua propaganda? Eu não consigo ver nenhuma coerência nisso. As pessoas pensam que publicidade significa manipulação. Sim, num certo sentido é uma manipulação, assim como é manipulação, por exemplo, um homem tentar seduzir uma mulher. Explico: um homem interessado por uma mulher pode perceber que, agindo de determinado modo, poderá conquistá-la. Ele procurará, vamos imaginar, considerar quais suas inclinações e procurará usar o conhecimento que tem delas em benefício de sua conquista. Há algo de errado nisso? Todos, em geral, somos seres capazes de seduzir e de se deixar seduzir. Se alguém deliberasse “não deixarei que ninguém me seduza”, então essa pessoa deveria se tornar completamente insensível ao mundo.
O que quero dizer é que as pessoas são responsáveis por se deixarem seduzir e, nesse sentido, por deixarem-se manipular pela propaganda. A propaganda de uma cerveja promete prazer. Nós buscamos o prazer. Experimentamos uma cerveja e sentimos prazer com isso. Provavelmente buscaremos repetir essa aprazível experiência. Qual o problema nisso? Ah, as pessoas podem ficar viciadas. Sim, claro, podem ficar viciadas. Quem não quiser correr esse risco, não beba cerveja.
4 comentários:
Caro Aguinaldo.
Acabo de entrar na internet e passei por aqui para ver se havia atualizado o teu blog e com alegria li este post. Eu pensava justamente em publicar ainda agora em abril ou no começo de maio um texto em meu blog para falar sobre esse assunto e dizer praticamente o mesmo que você disse aqui. Imaginei mesmo que o sr. fosse publicar algum texto a respeito. Essa proibição é simplesmente ridícula, absurda!
Ora a propaganda do comerciante é, antes, um anúncio da existência daquele produto. Se a propaganda não tocar o indivíduo de certa maneira - como você colocou "seduzindo-o" -, então as chances das vendas daquele produto se reduzem à qualidade daquele produto, unicamente. É claro que uma indústria que vende seus produtos com somente a propaganda que os consumidores realizam entre si, é uma indústria feliz, pois acredito que essa propaganda seja a mais importante a ser buscada pela empresa, isto é, a excelência.
Mas a questão é que o anunciante é livre para vender produtos de baixa qualidade e a propaganda atraente de seu produto é essencial para a venda do mesmo, e essa venda se dá unicamente porque o consumidor consome o que quer, mas aquilo que ele quer é aquilo que agrada seu gosto. Ora ele não poderia querer nada se nada tocasse seu espírito positivamente. Ademais, penso que um indivíduo que não se sente atraído por nada que é anunciado a ele, é um sujeito que sofre de depressão.
Essa manipulação que essa turma diz existir é tal que é como se existisse um homem mau e cruel com uma arma apontada na cabeça do indivíduo ordenando-o que compre mais e mais as coisas que ele não quer.
Ridículo... simplesmente. Esse pessoal não sabe somar 2 com 2.
Hey, professor!!
Enfim, concordamos??!!
hehe...
Bjo.
Dani.
Poxa, comecei lendo o post achando que se tratava de uma outra perspectiva. Achei a conclusão lamentável, não me entenda mal, você escreve bem, é, certamente, uma pessoa inteligente, mas ouso dizer que sua perspectiva não é das mais imparciais.
Pense da seguinte forma, seria correto um adulto usar de seu intelecto superior para levar uma criança a cometer um ato que pudesse a prejudicar de alguma forma?
Agora um outro comparativo, seria correto um adulto com um nível de instrução, conhecimento e intelecto superior usar dessa capacidade para convencer a outro menos instruído a adquirir, usufruir, comprar, algo?
No outro comentário foi usado o exemplo de "um homem mal com uma arma apontada na cabeça do indivíduo"... Esse não seria o pior dos piores, porque o "homem mal" de verdade, pode fazer muito mais estrago com uma duzia de palavras do que com uma metralhadora automática.
A publicidade, no geral, procura falar dos lado positivo e ocultar os possível e até comprovados males.
Por fim, creio que todos tem o direito de usufruir de todas e quaisquer drogas que quisessem, mas daí a fazer propaganda disso, é outra história. Imagine comerciais de outras drogas, como cocaína, crack... oxi ... krokodil?
Bem, eu mesmo poderia criar um belo comercial a respeito do uso de cocaína, pois também atuo na área de publicidade, não tenha dúvida que teríamos uma bela peça que instigaria um número enorme de pessoas a experimentar.
Mas em uma época em que tudo mundo fala em responsabilidade ambiental, comerciais a respeito do verde, da preservação da natureza, etc... Será que preservar a saúde física e mental das pessoas não é ainda mais importante? Mas talvez não seja relevante, afinal, falar disso não ajuda a aumentar a margem de lucro. :/
É isso aí, não me interprete mal, é apenas uma opinião. Só não podemos esquecer que o amor a nossa profissão não pode superar os limites de nossos princípios. Mas, sendo estes pessoais, que fique cada um a merce de sua consciência.
Se você leu até aqui. Obrigado.
Tudo de bom e um abraço. ;)
Marcelo.
Obrigado pelo comentário.
Acredito que nossas premissas morais sejam radicalmente diferentes. Eu acho que um adulto não deve ser tratado como uma criança e apenas apoio a coerção quando ela é usada para impedir o uso inicial agressivo de outra coerção. Publicidade, por definição, exclui coerção. Ah, é claro que penso que coerção é um conceito que implica força física.
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