23 agosto 2006

Sócrates e a democracia


No dialogo Critão, ao que parece Sócrates rejeita a democracia. Para ele, o povo age ao sabor do acaso e não merece ter suas opiniões levadas em conta. Para Popper, a crítica de Sócrates à democracia é uma crítica democrática que deve ser distinguida de uma crítica totalitária da democracia. A crítica democrática é amigável. A crítica totalitária é hostil.(Sociedade Aberta I 205). Eu penso que a crítica de Sócrates à opinião da maioria tem o sentido de defender que a única autoridade moral é o individuo, não a multidão. Isso talvez seja compatível com a democracia, pois a democracia se volta ao problema da autoridade política, não da autoridade moral. Mas isso tem de ser muito bem ponderado. Se o povo obra ao sabor do acaso em geral, então ele também não seria uma boa autoridade política. No fundo, o argumento não seria muito diferente do encontrado em outros diálogos (do Sócrates platônico) em que também se critica a opinião vulgar e explicitamente a democracia (como na República). De todo modo, acredito que Sócrates, no Critão, visava apenas à crítica da maioria como autoridade moral.


Bibliografia
PLATÃO. “Critão”. In: Diálogos. Tradução de Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 1995, p. 119-134.
PLATÃO. A República. 7 ed.  Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Calouste Gulbenkian.1993.
POPPER, Karl R. A sociedade aberta e seus inimigos. Vols. I e II. 3. ed. Tradução de Milton Amado. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1987.

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