03 junho 2006

Santos Dumont e a conquista do ar – Por Alceu Serpa Ferraz


Sempre fui fascinado por dois temas: aviação e história, e quando se juntam os dois, deixo de lado qualquer outro assunto para me envolver com os mesmos.
A história do avião se confunde com a vida e obra de Santos Dumont, e tendo ele vivido grande parte de sua vida em Paris, julguei oportuno que nossa imprensa fosse dedicar alguma atenção a esta história quando em 1988 o Brasil estava atento em Paris para assistir a final do Campeonato Mundial de Futebol com o jogo Brasil X França, jogo que nos daria a honra de sermos penta campeões do mundo. Sabemos que o jogo foi uma seqüência de desastres que nos levaram a perder essa Copa. Perdemos também, a meu ver, uma grande oportunidade de nossa imprensa mostrar ao mundo quem foi Santos Dumont e o que ele fez em Paris.
Santos Dumont dedicou sua vida e inteligência a estudar a mecânica do vôo primeiramente com os balões. No inicio do século XX os balões eram livres, isto é, o aeronauta sabia onde seu vôo começava, mas não tinha meios de garantir onde e quando terminava. Com o objetivo de incentivar as pesquisas nessa área, foi instituído o prêmio Deutsh (100.000 francos) para o primeiro aeronauta que conseguisse decolar com um balão, dar a volta em torno da torre Eiffel e voltar ao ponto de partida no tempo de 30 minutos. A prova foi vencida por Santos Dumont com o seu balão número 6 no dia 19 de outubro de 1901; ele mostrou com muita coragem e perícia a milhares de parisienses que já dominava as alturas com um aparelho mais leve que o ar. Do valor recebido doou a metade para seus empregados e colaboradores, o restante aos pobres de Paris para que eles retirassem suas ferramentas de trabalho, anteriormente penhoradas. Posteriormente dedicou sua atenção aperfeiçoando as máquinas mais pesadas que o ar, atingindo sua perfeição (para a época) na forma de um avião, o 14 Bis, que em 23 de outubro de 1906 realizou o milagre de voar pela primeira vez no mundo utilizando unicamente seus próprios recursos. Esse vôo foi nada alem de 60 metros a uma altura de aproximadamente 3,0 metros no tempo de 21 segundos com o que ganhou a Taça Archdeacon e em 12 de novembro do mesmo ano, ganhou o prêmio oferecido pelo Automóvel Clube de Paris tendo voado 220 metros quando o mínimo era um vôo de 100 metros.
Este fato foi realizado na presença de uma pequena multidão, da imprensa, e controlado pelos dirigentes do Aero Clube de Paris; estes vôos, tão modestos hoje, foram suficientes para consagrar seu inventor e cobrir de glória o Brasil que ali tinha o seu filho mais ilustre.
Em 1º de outubro de 1913 o Aero Clube de Paris realizou no campo de Bagatelle uma homenagem a Santos Dumont na forma de um monumento de granito com uma estátua de Ícaro. No monumento, se lê: “Aqui no dia 12 de novembro de 1906, sob o controle do Aero Clube da França, Santos Dumont estabeleceu os primeiros recordes da aviação do mundo. Duração: 21s e 1/5. Distância: 220 metros”. Ele recebeu o título do Pai da Aviação e a Comenda da Legião de Honra sob os acordes da Marselhesa e do Hino Nacional Brasileiro (cf. Barros, Henrique Lins de. “Santos Dumont e a invenção do vôo). – provavelmente a cerimônia mais emocionante de toda a vida de Santos Dumont.
Enquanto isto ocorria na França, nos Estados Unidos, os irmãos Wright (Orville e Wilbur) já voavam com seu avião, o Flyer, desde 1903. A grande diferença, porém, era que para o Flyer decolar ele precisava de uma força externa, uma catapulta ou um trilho de madeira inclinado que dava início ao seu deslocamento, pois o motor que ele dispunha não era capaz de fazê-lo correr no solo com a velocidade necessária para levantar o vôo. Essa diferença motivou a frase de Otto Liliental: “Criar uma máquina voadora não é nada, construir uma também não é muito, fazê-la voar é que é tudo”. A polêmica que ainda persiste sobre a paternidade do avião entre os irmãos Wright e Santos Dumont foi mencionada por uma autoridade das mais expressivas no mundo ocidental, quando Bill Clinton, presidente dos Estados Unidos na época, veio em viagem oficial ao Brasil em 14 de outubro de 1997 e no seu primeiro discurso disse: “O Brasil já deu aos Estados Unidos várias contribuições, entre elas Candido Portinari, Jorge Amado, Pelé, Tom Jobim e Santos Dumont, o Pai da Aviação”.
Suas palavras me emocionaram porque era o testemunho que sempre nos faltou, partindo de uma autoridade responsável que, mesmo levando em conta o nacionalismo do americano foi capaz de assim se expressar e deveria merecer muita atenção de nossa parte: autoridades e público em geral. Infelizmente, porém, pouco ou quase nada isto representou para nós.
Imaginei que esse depoimento fosse capaz de aplacar todas as dúvidas que pudessem ainda pairar sobre o tema, mas vejo que nossa imprensa não divulgou o assunto como seria de se esperar.
Em 1932 Santos Dumont estava no Guarujá tentando conviver com os sintomas da depressão. Na ocasião, o Brasil estava mergulhado na Revolução Constitucionalista. Era extremamente difícil ele aceitar que brasileiros estavam se matando, uns contra outros, para isto utilizando-se de aviões cujos princípios foram profundamente estudados e criados por ele. Ele se sentia responsável pelo que estava ocorrendo, pois havia dedicado toda sua vida alimentando a idéia de que o avião deveria ser utilizado para fomentar a paz e o entendimento entre todas as nações.
A tristeza foi maior que sua alma poderia suportar, motivo pelo qual colocou um ponto final em sua vida no dia 23 de julho de 1932 aos 59 anos. Foi sepultado no Rio de Janeiro junto com seus pais, no túmulo que ele preparou no ano anterior.
Dele resta o coração conservado em uma bola de ouro no Museu da Aeronáutica no Campo dos Afonsos no Rio de Janeiro e seu corpo que, ao descer para o solo que ele tanto amou, recebeu a homenagem de milhares de aviadores no mundo todo, que estando em vôo inclinaram suas asas em um ultimo adeus a quem tanto fez pela aviação.
Referências
BARROS, Henrique Lins de. Santos Dumont e a invenção do vôo. 2.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2004.
DUMONT, Alberto Santos. Os meus balões. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1973.
HOFFMAN, Paul. Asas da Loucura: a extraordinária vida de Santos Dumont. Tradução de Marisa Motta. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.
JORGE, Fernando. As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont. Edição Ilustrada. São Paulo: Nova Época Editorial LTDA, 1973.
LEGRAND, Jacques - s.a.(Org.). Chronicle of Aviation. London: Chronicle Communications Ltda, 1992.
PIMENTEL, Homero; URBAN, Paulo. Santos Dumont – Bandeirante dos ares e das eras. São Paulo: Madras, 2006.
WINTERS, Nancy. Man Flies. The story of Alberto Santos-Dumont. Master of the Balloon. New Jersey: The Ecco Press, 1998.

Nenhum comentário: