
É verdade que a solução de Hobbes para o conflito político, ao reivindicar o absolutismo, é altamente questionável. Mas não se pode esquecer a produtividade de suas lições. Com ele aprendemos que a vida coletiva dos homens exige o Estado como um momento não superável. Quer dizer, se queremos a garantia da sociabilidade então não podemos prescindir do “gládio comum”. Ora, a sociabilidade humana é fundamentalmente política, vale dizer, não natural. Ela requer, assim, talvez a maior de todas as façanhas humanas, que é precisamente a proeza de evitarmos a ameaça constante do estado de natureza, da guerra de todos contra todos, da violência sistemática. Hobbes ensina que “a vida social não é um dado, uma coisa óbvia, mas uma construção permanente e sempre precária”. Os costumes têm força, mas não é com essa força que se garante a sociabilidade; finalidades sócio-políticas comuns são importantes, porém tampouco é aí que se funda a vida coletiva dos homens. A concordarmos com Hobbes, devemos olhar as coisas humanas com um olhar menos edificante e percebermos que é para a acomodação dos interesses individuais que se constrói o poder político, poder sem o qual o nosso estar no mundo seria solitário, pobre, sórdido, embrutecedor e curto (cf. L XIII, 76).
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