17 março 2026

A terna indiferença do mundo


Sim, cativa-me a sabedoria da indiferença de Meursault (talvez mais apatia que sabedoria, mas ainda assim cativante). Contudo, o conteúdo mais profundamente filosófico do livro é falho. O absurdo (como se pretende, eu não chamaria assim) que emerge da discrepância entre busca subjetiva de sentido e ausência objetiva deste não esclarece, nem é esclarecido, por um crime cuja motivação restaria subtraída a qualquer entendimento razoável (não há motivo, foi o sol, blábláblá). Meursault mata o árabe porque ele representa, em algum grau, um elemento hostil (basta considerar os acontecimentos que ocorreram um pouco antes). Certamente o assassinato não foi planejado, mas o árabe desperta nele algum instinto colérico alimentado pelo conflito com seu amigo Raymond. Mesmo que não tenha sido esse o motivo, algum motivo desencadeou a ação. O absurdo tem algum apelo na discussão sobre sentido e valor da vida (funciona no atacado), mas diz muito pouco sobre atos particulares (pouco vale no varejo). Felizmente, nas páginas finais, o livro coloca a perspectiva mais ampla do não valor da vida de modo muito feliz. É de se lamentar que Camus tenha se atrapalhado ao compor uma trama que embaralha os pontos.

Também no niilismo, na indiferença, no reconhecimento de que não vale a pena viver, na desesperança, na crença de que a morte é o fim absoluto, diante dessa compreensão desanimadora da existência, é possível, ainda assim, alcançar uma “terna” (tendre) indiferença do mundo. Não, pois, uma dura e agressiva indiferença, mas terna. Sim, é possível. 

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Você já se viu na singela situação de ter de ouvir de alguém, de alguém que você gosta, críticas duras, corrosivas dirigidas a quem você também gosta? Sim, sim, sim, às vezes acontece. Acontece? Ok. É a vida. Eu me incomodo muito com isso. Gosto de Nabokov, por isso encontro-me seguidamente com ele no mercado Shangri-lá. (Como nenhum de nós bebe, ficamos lá perambulando entre as bancas e conferindo os preços módicos das verduras). E, às vezes, ele vem com um papo, começa a falar mal de quem eu gosto. Bah ... Claro que eu adoro quando ele fala mal de alguém de quem também não gosto, mesmo que tenhamos de nos recriminar por nossa incontida maledicência. Mas como Nabokov é mui apreciado por mim e tendo ele falado mal de Camus, a quem também dedico grande apreço (como escritor, não como filósofo) sinto-me em situação desconfortável, incômoda. As coisas não fluem. Sim, claro, ok, ok, Camus tem muitos defeitos como romancista se a régua for Tolstoi, mas negar o valor literário de “O estrangeiro” me parece forçação de barra, algo muito subjetivo em Nabokov.