Erico acredita no progresso. É um escritor da esperança. Sua visão da história tende a ser linear, não cíclica (e é a visão cíclica que converge com o pessimismo, com a desesperança e, mais importante, converge com meus sentimentos sobre a vida).
É claro que eu poderia, ainda assim, gostar de O tempo e o vento. Seria talvez possível ter sido cativado pela história e, sobretudo, pela maneira como ela é narrada. Mas nisso também encontro motivo de desagrado. Se nós nos restringíssemos à primeira parte, O continente, eu não teria quase nada a objetar. Mas O retrato e O arquipélago (segunda e terceira partes) são realizações artísticas pequenas. O ritmo narrativo dessas partes, além de ser excessivamente lento (o que, por si só não seria um problema), é arrastado e saturado de discussões filosóficas e políticas que soam superficiais e, principalmente, artificiais. E digo superficiais e artificiais por estarem dentro de um romance, pois se elas fossem utilizadas num ensaio histórico e político, ok, ok. Nesse caso, teríamos de encarar como um fôlego teórico curto do autor, mas, em uma obra de arte, espera-se mais. Espera-se densidade formal, complexidade existencial, elaboração estética apurada.
A tarefa a que Erico se propõe é grandiosa: pintar um grande quadro histórico e político do Rio Grande. Todavia, seus personagens principais são banais (tenho em mente aqui O retrato e O arquipélago). Esse Dr. Rodrigo Terra Cambará, bisneto do capitão Rodrigo Severo Cambará, não passa de um hedonista primitivo com ares de alguma sofisticação. Ele é um desertor vulgar da fidelidade matrimonial, um ególatra e vaidoso (fico pensando na distância sideral entre esse adúltero e a personagem altamente verossímil e profunda de outro adúltero, criatura de Pasternak, o também médico Iúri Andreievitch Jivago).
As autorrecriminações do Dr. Rodrigo são inconsequentes, frívolas, de escassa densidade existencial. Com esse doutor, não há nenhuma chance de momentos epifânicos. Nem mesmo a morte de sua filhinha desfaz o encanto de um mundo apelativo aos seus apetites. Tampouco a trágica morte de Toni Weber tem impactos profundos em sua vida. Tais acontecimentos não o marcam, não impregnam o seu ser. O fato de eventos biográficos dramáticos não impactarem o modo de viver do Dr. Rodrigo contribui para que as tensões morais que ele vive (pobres tensões morais) não despertem empatia (ao menos em mim não despertam). Mesmo diante de tanto sofrimento (será que foi tanto assim?) Rodrigo acreditava que “a vida era boa. Deus era generoso. E ali estavam aqueles vinhos – rubi e topázio” (O arquipélago”, p. 461). Não há como ser cativado por uma figura cuja superficialidade permanece intacta após o choque do destino.
Seu filho Floriano, por sua vez, é um escritor medíocre, politicamente sentimental, intelectualmente indeciso.
Mas a gente dificilmente desgosta de uma obra por inteiro. Acho altamente interessante o esforço teórico e estético de Erico de tentar responder à pergunta o que é ser gaúcho. E como gaúcho que sou - e cada vez mais gaúcho - reconheço que muito aprendi sobre nossa singularidade histórica.
O TRÁGICO EM "UM CERTO CAPITÃO RODRIGO"
A ausência de uma visão trágica da existência, ausência que tanto me afasta dos deleites intelectuais que busco nos livros, não impede Erico de retratar o capitão Rodrigo severo cambara como um eterno insatisfeito. Cansado de guerrear, procura a paz e o sedentarismo em Santa Fé. Cansado da paz, precisa sair à caça de aventuras bélicas. Cansado de encontros amorosos fugazes, procura o refúgio de um amor monogâmico. Mas, cansado do amor monogâmico, cede à infidelidade.
Há aí um movimento interessante de inquietação permanente — talvez o ponto em que o romance mais se aproxima de uma dimensão trágica.
MÉRITO
O tempo o vento não é uma obra pretensiosa. Mesmo nos momentos em que envereda por discussões políticas e filosóficas, o livro não pretende ser presunçosamente profundo. Sente-se a autenticidade de Erico Verissimo como escritor. Ele deu o melhor que pode. De modo honesto, ele não quis ser um escritor que ele não poderia ser.
