05 dezembro 2025

𝐌𝐞𝐮 𝐬𝐨𝐟𝐫𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐜𝐨𝐦 𝐨 𝐟𝐮𝐭𝐞𝐛𝐨𝐥

Que coisa! Que sofrimento. Aquele jogo contra o Santos… puxa vida: não segurar o 1 x 0, não fazer 2, 3 no primeiro tempo? Caramba. E depois ainda teve a sexta-feira. O que fez o Vasco? E o que o Inter permitiu que lhe fizessem?

E essa do Abelão… Grande Abelão. Te adoro, Abelão. Mas não deu.

É batida a ideia de que o futebol é uma metáfora da vida (ok, mas me agrada a ideia). O simples fato de nossa conexão com o clube ser passional já diz muito do que é a existência. Nossos vínculos mais profundos, nossas mais renitentes esperanças, têm pouca base lógica; o sentido mesmo que damos à vida assenta-se em fundamentos muito mais emocionais. (A Zero Hora publicou há alguns anos um artigo meu “Por que sofrer com o futebol” em que exploro os aspectos da irracionalidade e solidão do torcedor).

O gol perdido está perdido para sempre. Os rebaixamentos de 2016 e o de 2025 são irreversíveis - assim como as merdas que fazemos em nossas vidas. Um pênalti desperdiçado não se conserta; tenta-se apenas não errar o próximo (ou, em certos casos, talvez seja mais sábio pedir para outro bater).

Talvez o que mais me encante no futebol seja a sua incerteza: uma bola desviada, um raro dia de autoconfiança, o brilho inesperado de ser protagonista de uma vitória improvável. Combinada com a incerteza, o tempo correndo, implacável. O juiz vai apitar o fim do jogo... Sempre há o apito final.

E há aqueles dias em que as pernas não respondem, o passe sai torto, o chute - tão bonito no gesto inicial - bate na trave e sai pela linha de fundo. Um momento de bobeira, um ato impensado, e a expulsão vem, prejudicando todo o time. Tudo isso é tão representativo da vida! (Até as derrotas, na próxima rodada, de Vitória, Ceará e Fortaleza e o triunfo do Inter. Imaginem só). 

Agora me cabe encarar a Série B mais uma vez. O tempo vai me acalmar (eis um consolo, e um consolo quase infalível). Em 2026 estarei envolvido em jogos empolgantes como Inter x CRB. Para um campeão do mundo, dói. Mas é a vida.

Há, eu sei, tantas coisas mais importantes na vida do que futebol. Há acontecimentos que nos fazem sofrer infinitamente mais: a doença de uma filha, de um pai, de uma mãe, de um irmão, de um amigo; o peso dos arrependimentos e das culpas; a sensação de injustiça; nossa saúde às vezes precária; o medo da morte. No quadro geral das coisas que realmente nos afligem, o futebol está longe de ocupar posição relevante.

Ainda assim, a derrota - o fracasso do time amado - embarga um pouco a minha existência. Quando ele triunfa, sinto-me maior, alegre; a potência de existir sobe. (Imaginem-me em 17/12/2006.)
Quando ele perde, sobretudo quando sucumbe como agora, quando padece algo calamitoso como um rebaixamento, então eu mesmo me sinto apequenado, diminuído, pisado.

Fico tão abatido que evito ouvir notícias esportivas; temo até ouvir notícias gerais — vai que, no meio delas, aparece uma nota sobre São Paulo x Inter. Certamente, sangra um pouco.

Como acontece com as coisas na vida, não escolhemos (quero dizer, não escolhemos no sentido indeterminista de uma livre escolha). Somos determinados pelo ambiente (eu sou gaúcho; minha mãe torce pelo Inter) e por nossas arquiteturas biológicas subjacentes (oh, que ser sofredor e dramático esse sujeitinho que, aos 9 anos, chorava quando o Inter perdia um Campeonato Gaúcho para o Grêmio - sempre sentimental!).

Eu vou melhorar. Tudo passa; tudo passará. É a vida.
E viva a vida, viva a queda, viva a derrota. Há beleza poética no sofrimento - e isso, para mim, conta muito. É lenitivo.