Talvez exista – se minha intuição estiver certa – alguma diferença entre um grande filósofo e um autêntico filósofo. Não considero que todos os grandes filósofos sejam necessariamente autênticos filósofos. No que me toca, acho que poucos filósofos autênticos sejam autores de grandes filosofias. Há pseudofilósofos em considerável número no rol dos grandes filósofos.
Grandes pseudofilósofos seriam aqueles que, embora tenham escrito coisas historicamente relevantes, nada comunicam a mim (“a mim”; notem, pois se trata de algo por demais subjetivo). Eles não me tocam.
Tolstói, Machado de Assis são autênticos filósofos, mas não grandes filósofos. Autênticos filósofos têm alma e coração filosóficos (ainda que não tenham dado forma a algo parecido com um sistema ou pensamento mais totalizante e organizado). São essencialmente não burocráticos, são mais instintivos, espontâneos no seu filosofar.
Associada à diferença entre grandes filósofos e autênticos filósofos, está uma que me agrada deveras. Aquela em que Schopenhauer insiste: há os que vivem DA filosofia e os que vivem PARA a filosofia. Ok, ok, eu sei que ele forçou a barra, romantizando demais as coisas. Mas dá para encarar a vida a seco? Talvez, desde que a intensidade da secura também nos eleve. Nem sempre o canto tem de ser torto, embora ele quase sempre seja feito faca – e corte, não sei a carne de vocês, mas a minha sim. E pensar que se tenha de viver não para, mas da filosofia, bah, aí corta.
Schopenhauer, esse grande e autêntico filósofo, disse, entre 57 coisas interessantes, uma bem legalzinha que gostaria de citar:
Tem valor verdadeiro unicamente o que alguém pensou sobretudo para si mesmo. Com efeito, pode-se dividir os pensadores entre os que pensam primeiramente para si mesmos e os que pensam de imediato para os outros. Aqueles são os autênticos, são os que pensam por si mesmos no duplo sentido da palavra: são os verdadeiros filósofos. Pois apenas eles tomam a sério o assunto. O prazer e a felicidade de sua existência baseiam-se justamente no pensar. Os outros são os sofistas: querem aparentar e buscam sua felicidade no que esperam obter dos outros: nisso consiste a seriedade deles.
Hoje (isto é, nos dias que correm dessa minha vidinha insípida), percebi que perdi grande tempo da minha vida com grandes filósofos que não eram exatamente autênticos filósofos. Opa, isso ficou meio mingau. Não, não perdi. Por que se lamentar? A propósito de perdas, a pior perda de tempo foi com comentaristas de filósofos (sim, vou me lamentar). E como citei Schopenhauer, preciso citar Montaigne:
Há mais dificuldade em interpretar as interpretações do que em interpretar as coisas, e mais livros sobre os livros do que sobre outro assunto: só o que fazemos é nos glosarmos mutuamente. Tudo fervilha de comentários; de autores há grande penúria.
Continua sendo ótima a pergunta do Bigode: “de que vale um livro que não nos transporte além dos livros?"
Nunca são os livros o objeto de estudo de um autêntico filósofo.
Se não desviarmos o olhar (e livros são sempre um desvio do olhar), logo perceberemos para onde nossos olhos devem mirar, se quisermos começar a filosofar.