Almas mortas é uma obra impactante, marcante, genial. Quem a leu sabe que o tom predominante é irônico e quase sempre salpicado de humor. Os caracteres retratados por Gogol ⎼ com virtuosismo de pintor ⎼ são universais: ele mostra, com brilho, quão ridículos somos todos nós. Ao lado disso, há momentos que particularmente me tocam. Refiro-me aos momentos de melancolia presentes no livro.
“Agora, é com indiferença que me aproximo de qualquer aldeia desconhecida, e vejo com indiferença o seu aspecto banal; meus olhos frios não lhe acham graça, não me diverte o que em anos passados despertaria uma expressão viva no meu rosto, riso e conversas intermináveis, e que agora passa sem tocar-me, e meus lábios imóveis guardam um silêncio incurioso. Oh, minha mocidade! Oh, minha inocência”.“O que significavam essas lágrimas? Revelaria com elas sua alma dolorida o triste segredo da sua enfermidade: que não tivera tempo de formar-se e fortificar-se o incipiente homem de elevado padrão que nele germinara; que, não tendo sido adestrado desde tenra idade na luta contra os reveses da vida, ele não soubera atingir o estágio superior em que as dificuldades e os obstáculos elevam e fortificam o homem? Que, fundida, qual metal no cadinho, sua rica reserva de grandes impressões não chegara a receber a têmpera final, e que cedo demais para ele morrera seu extraordinário mestre, e que agora não existia ninguém no mundo inteiro capaz de restaurar lhe as forças abaladas por eternas vacilações e a vontade fraca e desprovida de resistência, ninguém que lhe lançasse, num brado capaz de despertar a alma, aquela palavra animadora: “Avante”, pela qual anseia em toda parte, qualquer que seja a sua categoria, classe, suposição social ou profissão, o homem russo?”
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Todos estamos (pelo menos eu garanto que estou) perdidos na vastidão desprotegida das estepes. Nelas, desamparados, contemplamos, inertes, a vastidão do espaço e a nossa pequenez interior.
Se é verdade que em Almas mortas há um acento cômico, também é verdade que, por trás do cômico, jaz a tragédia – essa, sempre mais reveladora de nossa condição
