Pois então, começava a pensar, às vezes, em tom de sátira (e, quando pensava em si quase sempre começava de modo satírico), pois então existe alguém, lá no outro mundo, que se preocupa com a correção da minha moral e me envia essas malditas recordações e ‘lágrimas de remorsos’. Dane-se, não adianta nada! Tudo isso são tiros de festim! Ora, é como se eu não soubesse com certeza, e com certeza mais do que certa, que, apesar de todas essas lágrimas de remorso e autocondenações, não há em mim nem um pinguinho de independência, apesar de todos meus tolíssimos quarenta anos.[..] De fato, ninguém vai ficar sofrendo o tempo todo com as recordações : é possível descansar e se distrair nos entreatos.
Em O eterno marido, o jogo psicológico, num estilo quase teatral (típico de Dostoiévski) é primoroso e altamente verossímil em seus largos traços. Há uma intensidade dramática arrebatadora nessa belíssima novela. Por certo, os caracteres das personagens são extremos, algo que geralmente me afasta de um apreço maior por Dostoiévski. Às vezes, quando ouço alguém querer equipará-lo a Tolstói, um verdadeiro artista da condição humana, mil vez melhor que Dostoiévski, meu distanciamento em relação a Fiódor Mikhailovitch amplifica-se numa exaltada verve de eterno leitor deslumbrado com a profundidade de Lev Nikoláievitch. Quando falo em mil vez melhor, quero apenas dizer que Tolstói faz mil vezes mais sentido para mim, para minha vida, para minha míope visão das coisas, que Dostoiévski. Tolstoi tem mais intimidade comigo. Vale dizer que jamais emito opiniões sobre algum assunto como especialista nesse assunto. A única especialização que faço é a especialização em mim mesmo, curso em que tenho penado bastante. Geralmente não consigo tirar mais que 5,0 nas provas.
Num lampejo, a imagem febril da pobre criança surgiu tristonha à sua frente. Seu coração bateu mais forte ao pensar que, naquele mesmo dia, dali a pouco, em duas horas mais ou menos, veria de novo a sua Liza. “Eh, nem se discute!” decidiu com fervor. “Agora, é nisso que estão toda a minha vida e todo o meu propósito” Danem-se todas essas bofetadas e recordações ... E, até hoje, para que foi que eu vivi? Desordem e tristeza ... mas agora tudo e diferente, tudo é muito diferente.
Quem conhece as manhas existenciais e epifânicas de Tolstói vai perceber que esse trecho não teria dificuldades de encontrar um confortável lugar na literatura do autor de Guerra e paz. Mas, em Dostoiévski, são trechos. De todo modo, a novela não ambiciona grandezas, não se envaidece de ostentar o que não é. O que O eterno marido promete, cumpre — e cumpre com muito bem.
