15 maio 2026

“Um amor à primeira vista, à segunda vista, a cada uma e a todas as vistas”

Lolita
é uma obra de arte. Antes de tudo, uma obra de arte. E esse nunca pode ser considerado um feito menor. Ter algo a dizer, ter imaginado e composto envolventes histórias não basta para um livro merecer figurar como grande obra literária. Lolita é uma grande obra que narra o peso terrível da cruz carregada por quem vive sob o martírio do desejo, por natureza torturante.

O amor obsessivo: eis o tema deste formidável romance (uma das coisas mais lindas em que pousei meus cansados olhos e com eles percorri e repercorri suas primorosas páginas). Como Nabokov narra bem. Ah, quanta beleza poética sua pena colocou nas páginas. Que virtuosismo da palavra, da frase, da expressão (liricamente ornamentada) dos pensamentos. Não é só isso. Quanta penetração psicológica (de autoanálise psicológica), quanta atenção aos detalhes; sim, aos detalhes, detalhes que sempre fazem tanta diferença.

Fiquei olhando para ela, sabendo, tão lucidamente como sei que vou morrer um dia, que eu a amava mais do que tudo o que jamais vi ou imaginei neste mundo, ou que possa esperar em qualquer outro.

Eu me encontrei só, dirigindo através da garoa do dia que agonizava, com os limpadores de para-brisa em plena ação, embora incapazes de lidar com minhas lágrimas.

Naveguei de volta à estrada X e segui viagem. Uma hora depois, ao entrar numa cidadezinha anônima, fui tomado de um cansaço irresistível. Encostei junto ao meio-fio e, sob o manto das trevas, tomei um gole longo de meu frasco amigo.


*   *   *

Imaginei um mundo em que todos haviam lido Lolita. E havia, nesse esquisito mundo meu, um mundo de pura representação, sem nada de vontade, duas classes de pessoas, duas castas.

A primeira casta era formada por mamíferos humanos que, quando perguntados sobre o que haviam achado do livro, diziam: “Nossa, que coisa mais linda. Sublime, esplendoroso, primoroso, soberbo”.

A segunda casta era composta por pessoas que, à mesma pergunta, respondiam: “Bah, que coisa pesada. Difícil.... Contudo, há que se admitir que blábláblá” (após as primeiras palavras, eu não conseguia mais ouvi-las com atenção).

Essas eram as primeiras reações, e eram elas que determinavam a classificação de um ser humano como membro de uma ou outra casta.