Lolita é uma obra de arte. Antes de tudo, uma obra de arte. E esse nunca pode ser considerado um feito menor. Ter algo a dizer, ter imaginado e composto envolventes histórias não basta para um livro merecer figurar como grande obra literária. Lolita é uma grande obra que narra o peso terrível da cruz carregada por quem vive sob o martírio do desejo, por natureza torturante.
O amor obsessivo: eis o tema deste formidável romance (uma das coisas mais lindas em que pousei meus cansados olhos e com eles percorri e repercorri suas primorosas páginas). Como Nabokov narra bem. Ah, quanta beleza poética sua pena colocou nas páginas. Que virtuosismo da palavra, da frase, da expressão (liricamente ornamentada) dos pensamentos. Não é só isso. Quanta penetração psicológica (de autoanálise psicológica), quanta atenção aos detalhes; sim, aos detalhes, detalhes que sempre fazem tanta diferença.
Fiquei olhando para ela, sabendo, tão lucidamente como sei que vou morrer um dia, que eu a amava mais do que tudo o que jamais vi ou imaginei neste mundo, ou que possa esperar em qualquer outro.Eu me encontrei só, dirigindo através da garoa do dia que agonizava, com os limpadores de para-brisa em plena ação, embora incapazes de lidar com minhas lágrimas.Naveguei de volta à estrada X e segui viagem. Uma hora depois, ao entrar numa cidadezinha anônima, fui tomado de um cansaço irresistível. Encostei junto ao meio-fio e, sob o manto das trevas, tomei um gole longo de meu frasco amigo.
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Imaginei um mundo em que todos haviam lido Lolita. E havia, nesse esquisito mundo meu, um mundo de pura representação, sem nada de vontade, duas classes de pessoas, duas castas.
A primeira casta era formada por mamíferos humanos que, quando perguntados sobre o que haviam achado do livro, diziam: “Nossa, que coisa mais linda. Sublime, esplendoroso, primoroso, soberbo”.
A segunda casta era composta por pessoas que, à mesma pergunta, respondiam: “Bah, que coisa pesada. Difícil.... Contudo, há que se admitir que blábláblá” (após as primeiras palavras, eu não conseguia mais ouvi-las com atenção).
Essas eram as primeiras reações, e eram elas que determinavam a classificação de um ser humano como membro de uma ou outra casta.
