Em O deserto dos tártaros, somos alertados para o absurdo da esperança, para o seu engodo. Em O velho e o mar, as coisas parecem diferentes. Parecem, mas não são. É verdade que Hemingway, nesse livro, aponta para a vida como ação inevitável; viver é agir, viver é enfrentar as adversidades (ou delas fugir, distraindo-as de nossa mente o quanto isso for possível). Diferentemente de O deserto dos tártaros, em O velho e o mar” tem-se a impressão de que não se poderia viver sem esperança, porque ela está colada ao próprio sentido do agir humano. “É uma estupidez não ter esperança”, pensava Santiago. Mas em O deserto dos tártaros Giovanni Drogo também tem esperança. Nisso, ele, Santiago e nós (imagino que não fale apenas por mim), como humanos, seres de ação, ainda que às vezes vivendo no mundo da lua dos livros, da filosofia, do gabinetezinho todo alinhado em que praticamos nossas profundas leituras, nós, humanos, somos compelidos a aumentar a probabilidade de sucesso nas empreitadas em que nos engajamos (e, por vezes, logramos êxito, ok, ok). Mas a tragédia da vida é que ela não depende de nós, não está em nosso poder definir os rumos de nossa existência. Não era lamúria de pessimista, mas lucidez, a declaração de Schopenhauer de que diante da fortuna (sorte ou destino) nossos próprios esforços e empenhos são de pouca valia (Aforismos para a sabedoria de vida). Há o mar, há tubarões, não são apenas 84 dias que nos sufocam, talvez seja a vida toda (e ainda assim não desistimos). Retornaremos ao porto, sim, é possível que as ameaças do mar não nos engulam, mas, quando chagarmos ao porto, o alcançaremos esmagados, derrotados. Há quem, contudo, verá vitória na derrota, há quem verá beleza trágica nela (e estará certo), há quem olhará para a linda e edificante história de superação, de não desistência, de determinação. Sim, dá para olhar para vários lados. Nosso pescoço é flexível. O que vejo é: o velho nada escolheu, lutou porque era essa a sua natureza. Os velhos podem ser outros, pessoas diferentes de Santiago, mas o mar é o sempre o mesmo. Se não nos devora, nos destroça. De todo modo, o mar é belo. Suas profundezas são escuras, mas ele resplandece diante de nossos olhos, dizendo: ainda assim vale a pena. Além das trevas profundas, há consolo nos lampejos.
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