09 janeiro 2025

Dois modelos de felicidade

Uma vez, aconteceu que iam falando das desvantagens da riqueza.

— Valem muito os bens da fortuna, dizia Estácio; eles dão a maior felicidade da Terra, que é a independência absoluta. Nunca experimentei a necessidade; mas imagino que o pior que há nela não é a privação de alguns apetites ou desejos, de sua natureza transitórios, mas sim essa escravidão moral que submete o homem aos outros homens. A riqueza compra até o tempo, que é o mais precioso e fugitivo bem que nos coube. Vê aquele preto que ali está? Para fazer o mesmo trajeto que nós, terá de gastar, a pé, mais uma hora ou quase.

[...]

O preto de quem Estácio falara, estava sentado no capim, descascando uma laranja, enquanto a primeira das duas mulas que conduzia, olhava filosoficamente para ele. [...] o rosto exprimia a plenitude da satisfação; Helena relanceou os olhos ao quadro que o irmão lhe mostrara. Ao passarem por ele, o preto tirou respeitosamente o chapéu e continuou na mesma posição e ocupação que dantes.

— Tem razão, disse Helena: aquele homem gastará muito mais tempo do que nós em caminhar. Mas não é isto uma simples questão de ponto de vista? A rigor, o tempo corre do mesmo modo, quer o esperdicemos, quer o economizemos. O essencial não é fazer muita coisa no menor prazo; é fazer muita coisa aprazível ou útil. Para aquele preto o mais aprazível é, talvez, esse mesmo caminhar a pé, que lhe alongará a jornada, e lhe fará esquecer o cativeiro, se é cativo. É uma hora de pura liberdade.

(Machado de Assis. Helena, cap. 6)

Helena defende uma visão mais subjetiva sobre a felicidade, um modelo que tem seus atrativos. Porém, sinto-me mais inclinado à posição de Estácio (se nos faltam algumas coisas na vida, perdemos coisas essenciais à felicidade). O olhar do escravo sobre as coisas talvez seja aquele descrito por Helena, mas se ele conseguisse colocar na balança não apenas os momentos agradáveis que vive, se ele deixasse de lado, uma vez ao menos, o seu ponto de vista e tentasse ter um olhar mais amplo, veria que uma vida limitada como a dele é menos desejável que uma vida mais independente (como a de Estácio).