15 novembro 2024

O deserto dos tártaros

O deserto dos tártaros é de uma contundência atordoante. Esse livro fere direto o peito. É como se a senhora existência cravasse sua espada no nosso coração e, antes de nosso último suspiro, revirasse o gládio e dissesse: dói? Dói, diz a vítima, mas liberta. É um livro alegórico, mas direto, sem meias palavras, duro, verdadeiro. Sinto-me mortalmente ferido por uma verdade trágica e bela.

“Do deserto do norte devia chegar a sorte, a aventura, a hora milagrosa, que, pelo menos uma vez, cabe a cada um. Para essa vaga eventualidade, que parecia tornar-se cada vez mais incerta com o tempo, os homens consumiam ali a melhor parte das suas vidas”.

“Talvez tudo seja assim; acreditamos que ao redor haja criaturas semelhantes a nós e, ao contrário, só há gelo, pedras que falam uma língua estrangeira; preparamo-nos para cumprimentar o amigo, mas o braço recai inerte, o sorriso se apaga, porque percebemos que estamos completamente sós.” 

“Agora sentia até uma sombra de opaca amargura, como quando as graves horas do destino passam ao nosso lado sem nos tocar e seu ruído se perde ao longe, enquanto continuamos solitários, entre redemoinhos de folhas secas, a sentir saudade da terrível mas grande ocasião perdida”. 

“No seu rosto não se vê nenhuma dor especial. Não se revoltou; portanto, não pediu baixa, engoliu as injustiças sem abrir a boca, e está de volta ao posto de sempre. No íntimo, existe até a tímida satisfação de ter evitado bruscas mudanças de vida, de poder entrar de novo tal e qual na velha rotina. Ilude-se com uma gloriosa desforra a longo prazo, acredita possuir ainda uma imensidão de tempo disponível, renuncia desse modo à mesquinha luta pela vida cotidiana. “Chegará o dia em que todas as contas serão generosamente ajustadas”, pensa.”

(Ah, devo registrar a notável a semelhança temática e filosófica com Esperando Godot, de Samuel Becket).