O deserto dos tártaros é de uma contundência atordoante. Esse livro fere direto o peito. É como se a senhora existência cravasse sua espada no nosso coração e, antes de nosso último suspiro, revirasse o gládio e dissesse: dói? Dói, diz a vítima, mas liberta. É um livro alegórico, mas direto, sem meias palavras, duro, verdadeiro. Sinto-me mortalmente ferido por uma verdade trágica e bela.
“Do deserto do norte devia chegar a sorte, a aventura, a hora milagrosa, que, pelo menos uma vez, cabe a cada um. Para essa vaga eventualidade, que parecia tornar-se cada vez mais incerta com o tempo, os homens consumiam ali a melhor parte das suas vidas”.“Talvez tudo seja assim; acreditamos que ao redor haja criaturas semelhantes a nós e, ao contrário, só há gelo, pedras que falam uma língua estrangeira; preparamo-nos para cumprimentar o amigo, mas o braço recai inerte, o sorriso se apaga, porque percebemos que estamos completamente sós.”“Agora sentia até uma sombra de opaca amargura, como quando as graves horas do destino passam ao nosso lado sem nos tocar e seu ruído se perde ao longe, enquanto continuamos solitários, entre redemoinhos de folhas secas, a sentir saudade da terrível mas grande ocasião perdida”.“No seu rosto não se vê nenhuma dor especial. Não se revoltou; portanto, não pediu baixa, engoliu as injustiças sem abrir a boca, e está de volta ao posto de sempre. No íntimo, existe até a tímida satisfação de ter evitado bruscas mudanças de vida, de poder entrar de novo tal e qual na velha rotina. Ilude-se com uma gloriosa desforra a longo prazo, acredita possuir ainda uma imensidão de tempo disponível, renuncia desse modo à mesquinha luta pela vida cotidiana. “Chegará o dia em que todas as contas serão generosamente ajustadas”, pensa.”
(Ah, devo registrar a notável a semelhança temática e filosófica com Esperando Godot, de Samuel Becket).
