Felicidade conjugal foi escrita quando Tolstói tinha 31 anos e ainda não era casado. Incrível, nessa idade e esbanjando sabedoria, uma sabedoria haurida da observação do mundo e de uma soberba imaginação. A meu ver, essa novela tem mais verdade e beleza que Sonata a Kreutzer. É claro que gosto de ambas. Mas Felicidade conjugal é bela e profunda em sua serenidade. Vai ao encontro de um Tolstói de Guerra e paz. O casal Sierguiéi Mikháilitch e Mária Aleksândrovna (Felicidade conjugal) mantém estreitos contatos com Pierre Bezukhov e Natasha Rostova (Guerra e paz) e fazem visitas amistosas a Liévin e Kitty (Anna Kariênina). Por certo, as personagens e os romances e novelas possuem diferenças importantes, mas noto semelhança no tom, na perspectiva ampla da vida, na aprendizagem e paciência com o passar do tempo, com suas mutações. Sonata a Kreutzer é uma tese teórica sobre o significado do amor, ok (conecta-se com O diabo, a natureza do desejo). Discordo dessa tese, mas a novela é maravilhosa. Felicidade conjugal, de modo menos estridente, nos ensina a felicidade possível nas relações humanas (sim, é possível ser feliz no casamento), sejam essas relações as de marido e mulher, namorado e namorada, entre amigos, pais e filhos. É fácil extrapolar o que acontece na novela, em termos de autoconhecimento e descoberta do outro, para a vida em geral. Portanto, Felicidade conjugal tem um alcance que ultrapassa o tema da felicidade no casamento. E isso eu só vim a perceber melhor recentemente, fazendo uma releitura da novela. Quando a li, pela primeira vez, não senti quão profundo Tolstói estava sendo. Nessa releitura ( não por causa do Rubens Figueiredo, o meu tradutor preferido) senti que se trata de uma preciosidade que somente os gênios podem nos oferecer. Eles nos oferecem o belo (e algumas vezes, como é o caso de Tolstói, também o bom e o verdadeiro).
02 outubro 2024
É possível ser feliz?
Felicidade conjugal foi escrita quando Tolstói tinha 31 anos e ainda não era casado. Incrível, nessa idade e esbanjando sabedoria, uma sabedoria haurida da observação do mundo e de uma soberba imaginação. A meu ver, essa novela tem mais verdade e beleza que Sonata a Kreutzer. É claro que gosto de ambas. Mas Felicidade conjugal é bela e profunda em sua serenidade. Vai ao encontro de um Tolstói de Guerra e paz. O casal Sierguiéi Mikháilitch e Mária Aleksândrovna (Felicidade conjugal) mantém estreitos contatos com Pierre Bezukhov e Natasha Rostova (Guerra e paz) e fazem visitas amistosas a Liévin e Kitty (Anna Kariênina). Por certo, as personagens e os romances e novelas possuem diferenças importantes, mas noto semelhança no tom, na perspectiva ampla da vida, na aprendizagem e paciência com o passar do tempo, com suas mutações. Sonata a Kreutzer é uma tese teórica sobre o significado do amor, ok (conecta-se com O diabo, a natureza do desejo). Discordo dessa tese, mas a novela é maravilhosa. Felicidade conjugal, de modo menos estridente, nos ensina a felicidade possível nas relações humanas (sim, é possível ser feliz no casamento), sejam essas relações as de marido e mulher, namorado e namorada, entre amigos, pais e filhos. É fácil extrapolar o que acontece na novela, em termos de autoconhecimento e descoberta do outro, para a vida em geral. Portanto, Felicidade conjugal tem um alcance que ultrapassa o tema da felicidade no casamento. E isso eu só vim a perceber melhor recentemente, fazendo uma releitura da novela. Quando a li, pela primeira vez, não senti quão profundo Tolstói estava sendo. Nessa releitura ( não por causa do Rubens Figueiredo, o meu tradutor preferido) senti que se trata de uma preciosidade que somente os gênios podem nos oferecer. Eles nos oferecem o belo (e algumas vezes, como é o caso de Tolstói, também o bom e o verdadeiro).
