Deve cada um seguir cegamente o caminho em que se acha, sem considerar seus dotes pessoais, ou deve, pelo contrário, pesar as aptidões, as preferências que possa ter, e mudar a direção da sua vida? Foi o que tentei fazer e fracassei. Mas não admito que o meu fracasso valha como prova de que estava errado, do mesmo modo como não admitiria que o sucesso justificasse o bem fundado do meu ponto de vista. E é assim, entretanto, que, muitas vezes, julgamos os esforços, não pelo valor essencial, mas pelo seu resultado acidental. [...] No entanto, foi minha pobreza e não a minha vontade quem determinou a minha derrota (Thomas Hardy. Judas, o obscuro).
A última frase desse trecho é um tropeço decepcionante. Ela inviabiliza uma compreensão trágica da existência. Judas subscreve alguma espécie de pessimismo, por certo. O livro é praticamente a demonstração da verdade do pessimismo (pelo menos de um certo pessimismo), porém sem o seu elemento mais grandioso, que seria o elemento trágico. A derrota não é efeito da pobreza, é efeito da vida, de uma natureza indiferente às nossas aspirações. Pobres e ricos são derrotados, pois todos nós estamos sob o jugo do descaso cósmico. Talvez, se o Pequeno Pai do Tempo (personagem) não tivesse feito o que fez, os sonhos e ambições de Judas teriam sido reacomodados e ele viveria feliz com Sue, o menino e as crianças. Ao fim e ao cabo, ele, ainda que feliz, seria um derrotado. Teria feito a colheita da vida, recolhido em seu íntimo, com grande dificuldade de assimilação, e coletado, é claro, um maior número de derrotas que sucessos. Ele poderia ter visto, no seu destino, o destino de todos os seres humanos. Infelizmente, consolou-se sob a fácil reflexão de que era uma vítima. Ainda bem que o livro é muito mais do que isso. O livro é maravilhoso.
