Eis um livro invulgar: não é um grande livro, com ousadas tramas, aventuras interessantes, penetrações psicológicas, mas agrada, e agrada muito, sem que precise nos colocar nas alturas. A trivialidade do cotidiano, a pequenez das perspectivas das personagens, o desânimo melancólico e inevitável provocado pela passagem do tempo. Que livro belo. Quanta sabedoria esbanja o Conselheiro Aires, ensinando-nos, entre tantas coisas, a lucidez da desistência. Aires exibe uma sabedoria amena, diplomática, empática, cadenciada. E sim, uma sabedoria um tanto cansada - e como convém à sabedoria o cansaço.
O livro é sobre a velhice, a proximidade do fim, a paciência alimentada pela ausência de certezas, ou sobre a paciência nutrida pela presença frágil de certezas, lição que só o tempo traz.
Sem ser empolgante, o livro é encantador.
Eu tenho a mulher embaixo do chão de Viena e nenhum dos meus filhos saiu do berço do Nada. Estou só, totalmente só. Os rumores de fora, carros, bestas, gentes, campainhas e assobios, nada disto vive para mim. Quando muito o meu relógio de parede, batendo as horas, parece falar alguma coisa,—mas fala tardo, pouco e fúnebre. Eu mesmo, relendo estas últimas linhas, pareço-me um coveiro.
(Machado de Assis. Memorial de Aires)
