Graciliano me toca profundamente, sobretudo São Bernardo. Nos seus quatro romances, Caetés, São Bernardo, Angústia e Vidas secas, estão presentes a encantadora linguagem desafetada, sem rodeios, sem ornamentos retóricos, seca, clara, forte. Nesses livros maravilhosos, que tão bem fazem à minha alma, temos a visão lúcida da vida, da desilusão (e não se trata de desilusõezinhas deflagradas por causa da leitura de textos filosóficos; não se trata da desilusão de quem fica sentado, assistindo com a cara fechada a dança, mas de quem está dançando no meio do salão). Em Graciliano, temos a descrição do que é o mundo, por isso o dedo na ferida, isto é, no vazio da existência, na nulidade de todos os nossos esforços, daí a permanente lembrança da miserável condição humana diante de um cosmos indiferente.
Em Angústia, o tema da solidão, que atravessa do início ao fim São Bernardo, é retomado por Graciliano. Lamentavelmente, o solitário Luis da Silva é retratado de uma forma bem menos atraente. Seus solilóquios autoanalíticos são verborrágicos, prolixos, mórbidos até. Acho que Graciliano vai bem até o segundo terço do livro. Na última terça parte, a história perde o ritmo, fica maçante, o autor se perde. Será que terei essa impressão quando (se) vier a ler o romance pela terceira vez? Talvez não, talvez sim. O romance será o mesmo, eu não .
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O doutor chefe de polícia estava ali tomando café, de cabeça baixa, preocupado com alguma encrenca. Que é que me podia acontecer? Ir para a cadeia, ser processado e condenado, perder o emprego, cumprir sentença. A vida na prisão não seria pior que a que eu tinha. Realmente as portas ali são pretas e sujas, as grades de ferro são pretas e sujas, os móveis são pretos e sujos. É o que me amedronta. Aquele bolor, aquele cheiro e aquela cor horríveis, aquela sombra que transforma as pessoas em sombras, os movimentos vagarosos de almas do outro mundo, apavoravam-me. Não posso encostar-me às grades pretas e nojentas. [...] Viver por detrás daquelas grades, pisar no chão úmido, coberto de escarros, sangue, pus e lama, é terrível. Mas a vida que levo talvez seja pior. [...] Dar-me-iam água para lavar as mãos? A cara do doutor chefe de polícia era triste. Provavelmente ele vivia cheio de aborrecimentos, tinha uma necessidade qualquer e compreenderia a minha necessidade de lavar as mãos. Decididamente a polícia não me inspirava receio.