23 novembro 2023

Pombinha

Em O cortiço, não vejo, pelo menos não como algo primordial, uma denúncia das deploráveis condições de vida das classes populares, uma denúncia da ganância de patrões inescrupulosos. Não é isso que me chama a atenção. O que me sensibiliza é o seu valor cognitivo (talvez mais do que estético). Também é, claro, um agradável entretenimento mental. Sobre o valor cognitivo: a literatura sacia um pouco a fome pela vida, pelo conhecimento da realidade (sem denúncias, sem prescrições, sem pregações). Mesmo que seja um mero tatear no escuro a tentativa de conhecer a realidade, se o tatear funciona de alguma forma, e acho que funciona, é preciso alguma coisa externa para tocar (senão como tatear?).  Aluísio Azevedo diz algo sobre a realidade, permitindo, assim, que a mão reconheça algum objeto exterior ao corpo, que se sinta algo que expande a compreensão do mundo. É a literatura. Oh...

Nós somos brasileiros, não é? Mesmo que conheçamos alguém (nascido nessa terra) que gostaria de ter nascido na Dinamarca ou na Suécia, esse alguém aqui nascido e criado (como nós) terá alguma intimidade humana com os personagens de O cortiço. Até com João Romão e Miranda (também há Portugal em nós). Embora não haja um personagem moral ou intelectualmente interessante, há personagens bem humanos. Animais humanos, sim, mas, sublinhe-se, humanos. Agrada-me muito a figura de Pombinha. É a que mais me chama a atenção, talvez até mereça o epiteto de a sábia de O Cortiço