19 abril 2023

Rússia versus Ucrânia: a imoralidade da guerra e as palavras lastimáveis de Lula

Fenômenos sociais, políticos e econômicos estão sujeitos a diversas interpretações e juízos. A pluralidade de opiniões a respeito de um acontecimento e a complexidade que cerca determinado evento não deveriam impedir aos que, como estudiosos e políticos, ou mesmo simples cidadãos, lançam seu olhar sobre os assuntos humanos. 

A guerra na Ucrânia, desencadeada pela invasão russa, desafia qualquer expectador a algum posicionamento. Claro que muitos talvez prefiram dar de ombros, alegando que isso ocorre muito longe de nossos quintais. Uma reação estranha, especialmente quando o atual e o ex-presidente, que tantas paixões suscitam, emitiram com relativa segurança seus pontos de vista acerca do conflito. Portanto, mesmo sendo um assunto que talvez não nos toque diretamente, a opinião de líderes políticos (sejam eles odiados por uns, amados por outros ou, quiçá, simplesmente desprezados) parece de alguma forma nos afetar. A mim, afeta. 

Conflitos entre países representam, em certa medida, a extensão dos conflitos entre os indivíduos. A violência marca a própria condição humana. Por certo uma guerra entre países não é diretamente, sem mediações e elementos complicadores intermediários, equivalente ao embate físico e violento entre duas pessoas. De todo modo, a raiz da violência reside na irracionalidade que, ao lado da razão, também nos define como seres de dupla índole, sociáveis e insociáveis. 

Pensemos na guerra na Ucrânia. Em que pese todo o arrazoado mui realista que invoca contextos e interesses, presumo que raríssimas seriam as pessoas do debate público que negariam o fato de que a Ucrânia é um país soberano. Então, com que direito a Rússia invade o território ucraniano?

No ano passado, Lula disse, em entrevista à revista Time, que Zelenski era “tão responsável quanto Putin. Porque numa guerra não tem apenas um culpado”. Ele também chegou a dizer que “quando um não quer, dois não brigam”. Agora, ele volta a reforçar esse entendimento, alegando que a decisão da guerra foi tomada pelos dois países. 

Quanta infelicidade nessa compreensão. As palavras de Lula são, do ponto de vista moral, lastimáveis. Diferentemente do que ele diz, a guerra na Ucrânia resulta de uma clara agressão, em que o agente agressor é manifestamente distinto do ente agredido. Há um lado culpado para a guerra: é o Sr. Putin. O presidente da Ucrania e seu povo não são de modo algum corresponsáveis por essa guerra. A Ucrânia, como vítima, exerce seu legitimo direito de defesa. 

Imagino que alguém reaja ao meu ponto e diga que estou sendo ingênuo ao falar em moral quando se trata das relações internacionais. Eu apenas pediria coerência, pois é curioso ver muitos discípulos do realismo político sobre a guerra na Ucrânia, em outros contextos, advogarem em prol do direito moral (alguns chegam a usar o filósofo alemão Kant como referência).

Bom, quanto a Kant, posso garantir que o tenho como um aliado, pelo menos um aliado filosófico. Para Kant, não é justificável invocar na política nenhum subterfúgio contemporizador diante de princípios morais. Se o mundo caminhou assim ou assado, se caminharia desse ou daquele jeito, essa pode ser uma boa desculpa para quem aceita o que é, mas não serve de base para quem prefere falar, quando julga as ações humanas, sobre como as coisas devem ser.