23 agosto 2022

A entrevista de Bolsonaro ao JN

Eu estava animado para ver a entrevista. A Globo, com seu comovente jornalismo político deveras objetivo, retumbante, cientifico e equânime, cumpre um importante papel de oposição ao governo do cara que imitou pessoas com falta de ar na pandemia. Todo governo tem de ser, na minha opinião, implacavelmente fiscalizado pela imprensa (ou, deveria eu dizer, essa é a imprensa que me cativa, pois cada órgão de imprensa pode fazer o que bem entender, apenas nem todos serão apreciados pelo meu palato). Agrada-me o tom crítico, impiedoso da imprensa, pois governos não merecem complacência alguma. (“Hay gobierno? Soy contra”).

Sendo assim, naturalmente torci pela Globo contra o Bolsonaro. Vibrei no início da entrevista. Contudo, essa empolgação inicial durou dois ou três minutos, pois já dava pra notar que Bolsonaro estava enrolando bem. Bonner, que começou de modo excelente, foi ficando pequeno. Eu gostaria que ele fosse mais incisivo quanto aos fatos. Deixou Bolsonaro repetir declarações falsas. A Sra. Vasconcellos também iniciou com firmeza, mas perdeu a oportunidade de promover o necessário constrangimento do governante ali presente.

Eu torço a favor dos indivíduos e contra governos, quaisquer governos. Por certo isso tem um limite. Eu concedo, entre outros pontos, uma correção da tese sobre efeitos econômicos que as restrições liberticidas durante a pandemia provocaram. Concedo teoricamente, pois o modo como o cara que chefia o executivo (isto é, o cara que chama de “canalha” e de “filho da puta” ministros do STF; no limite, alguém poderia dizer ok, nada condizente com o cargo, a meu ver, mas o meu ponto aqui é que o cara precisa ter a coragem de admitir), como dizia, o modo como esse cara defendeu a boa tese da liberdade durante a pandemia foi lamentável. A forma como foi defendida foi estúpida (na minha opiniãozinha, ok, não precisa espumar. Eu não deveria ter dito estúpida, dói muito, deveria ter dito “um tanto obtusa”, “com uma pontinha de estultice”). Que desventura para a liberdade ter como defensor alguém como Bolsonaro, o cara que considera Brilhante Ustra um herói nacional. Registre-se que a Sra. Vasconcellos deturpou a bandeira do “Fique em casa”. Ela disse que era “fique em casa quem puder”. Não é verdade isso. Declaração falsa, Sra jornalista.

Bom, é uma pena (mas é a vida...). Como torcedor, ontem só pude comemorar o gol aos 50 minutos (Avaí 0 X 1 Inter). Tinha o desejo de uma comemoração dupla: a vitória do Inter e a derrota do Bolsonaro na entrevista. Bolsonaro não perdeu o duelo. Na minha visão, ele ganhou da Globo, talvez apenas de 2 x 0, mas ganhou, e eu lamento, eu torcedor do Inter e torcedor de todos aqueles que, em vez de lamberem as botas de governantes atuais e pretéritos, são seus críticos incomplacentes.