10 julho 2022

Schopenhauer e Lula em Diadema

Schopenhauer esteve ontem em Diadema participando de um ato político. Não foi convidado, mas mesmo assim subiu ao palco e pediu a palavra. E como o pessoal de esquerda é mui tolerante, nunca se incomodam que vozes dissonantes exponham suas opiniões (prova disso é o que ocorreu na Unicamp há alguns dias), aceitaram que ele fizesse uma breve intervenção. Eis o que ele disse para um público sedento de discussões filosóficas.

SCHOPENHAUER: “Por mais que miseráveis condições e ignorância tenham a sua participação, em união com a aflição exterior, em muitos delitos; ainda assim jamais se deve considerar aqueles como a causa principal destes; na medida em que inumeráveis pessoas vivendo sob as mesmas miseráveis condições e nas mesmas situações, nunca cometeram um delito. A coisa principal, portanto, recai sobre o caráter pessoal, moral: este, entretanto, como expus no escrito que concorreu a prêmio, ‘Sobre a liberdade da vontade’, é estritamente imutável” (MVR II, cap. 47. Trad. Jair Barboza).

Logo na sequência, em resposta, Lula interveio.

LULA: Eu não posso achar que esse moleque que roubou [um tênis novo] é simplesmente um bandido. Porque se a gente achar que um jovem de 15, 16 anos já é bandido, a sociedade não tem solução. Quem é que resolve isso? O Estado. Se esse jovem tivesse condições de ter um tênis, se esse jovem tivesse condições de ter um celular, se esse jovem tivesse condições de ter um mínimo necessário não tinha roubo, não tinha roubo. Se esse jovem tivesse o que comer, se ele tivesse o que tomar café, o que almoçar, o que jantar, não tinha roubo, se ele tivesse oportunidade de trabalhar, não tinha [roubo]. Então, nós temos que, ao invés de pensar que a pessoa é logo bandida, nós temos que analisar a causa daquilo.

Que sorte tive eu - que apenas estava passando por lá - de pegar justamente essa parte do evento. Bom, depois que Lula fez a declaração que citei acima, olhei para o relógio e percebi que já estava atrasado para o chope com o Miquitinha. Contei para ele a inusitada presença de Schopenhauer no palco do evento esquerdista. Miquitinha é, de sólito, muito pouco literário, mas como já estava no quarto chope não apelou à denotação. Ele quis apenas saber qual a minha opinião. Disse somente que concordava 23% com Lula e 77% com Schopenhauer.