02 março 2022

Guerra injusta


Você escolhe se prefere pronunciar-se sobre contextos e hipocrisias das potências ocidentais ou se prefere declarar seu julgamento moral. Na verdade, você não precisa pensar em termos disjuntivos (ou julgamento moral, ou complexas análises históricas), pois não precisa fazer nada, não precisa escolher nada. Mas fique na buena que você pode fazer as duas coisas. Ok? Tranquilis?

Agora, para aqueles que estão na dança, e arriscaria dizer que quase todos estão na dança, alguma ênfase, alguma opiniãozinha vai rolar. Eu julgo moralmente injusto iniciar uma agressão. Parece, diz o piazinho pro pai dele aqui ao lado, todos concordam com isso, desajeitado professor.  Pois é, então estamos indo bem. A Rússia iniciou uma agressão. Logo, a guerra que ela faz contra a Ucrânia é injusta. Mas não assim tão rápido (o pai do menino espumou e fez a mesa tremer com um murro de indignação). Não, bah, desculpa, pensei que era simples (pensei em perguntar por que ele ficou tão nervoso, mas achei melhor ignorar tamanha virilidade). Não, não é. A Rússia está sob ameaça, entende, meu querido ex-vendedor de picolé. É por isso que ela ataca, na verdade contra-ataca. Hum, ameaça, isso é interessante.

Pensei que era mais simples (só ficou o piazinho na mesa, o pai dele, torcedor do Mirassol, juntou-se a um pessoal que falava sobre a Copa do Brasil e os resultados de ontem). A propósito de complexidades e tal,  pensei que a própria existência de uma Ucrânia independente, soberana, mais inclinada aos valores liberais do ocidente (para usar uma linguagem praticada por alguns) incomodasse o ditador Putin. Até cheguei a pensar que essa história de “nós, russos, estamos sob ameaça” era mais retórica, um pretexto. Mas alguns acham que não, que há justiça nas agressões que no momento os ucranianos sofrem. 

Opa, não vamos falar em justiça. Não vamos? Sempre acabamos falando, piazinho. Mas e sobre a ameaça? Eu acho um conceito bem difuso, esse de ameaça. Mas entendo que se alguém toma certas iniciativas, essas inciativas podem ser interpretadas como uma ameaça. Acho que sempre paira no ar uma ameaça contra tudo e contra todos (em geral, ok, em geral). Por isso, uma faca, uma pedra, um revólver, um tanque, mil tanques, um míssil podem ser, no limite, justificados como atitudes defensivas. Ok. Mas qual a ameaça da Ucrânia? Se digo para alguém: não quero mais fazer parte do grupo, pois no fundo talvez já há algum tempo não goste mais desse grupo, estou fazendo uma ameaça? Agora eu vou fazer parte de um outro grupo. Eu tenho esse direito? Se não indico com palavras e gestos o mal que quero fazer contra outra pessoa, eu ainda a ameaço? (Sim, o simples fato de você existir sem dobrar os joelhos é uma ameaça. Hum?) Mesmo sem essas indicações menos subjetivas eu devo ser agredido por estar afetando alguém e fazendo-o sentir-se ameaçado? (Se faço indicações de propósitos agressivos, pareceria admissível interpretar essas indicações como tendo um significado próximo ou equivalente a iniciar uma agressão. Mas ainda assim caberia ponderar que tipo de reação defensiva seria legítima).

Bom, meu juízo moral é claro: agressão não defensiva é injustiça. Minha condenação moral é absoluta. O piazinho disse: não sei, vou conversar com o pai depois, comigo ele fica mais calmo.

* (considero perfeitamente possível criticar conflitos entre Estados, que implica a instrumentalização de indivíduos (numa visão libertária) e, ainda assim, reconhecer a injustiça de uma guerra entre Estados).

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