Política, revolução, amor, solidão e morte
Iuri Andreievitch Jivago diz não à política, não ao socialismo, mas, claro, diz esse não de uma forma garbosa, sutil, insinuante, pois sua alma, bela que é, não pratica negações estridentes. Iuri estabelece negações indiretas e, para muitos, talvez até nutra alguma simpatia pelo ideal coletivista (seres, personagens, figuras interessantes muitas vezes trazem consigo o dom de confundir). Bom, para mim ao menos (como disse o Nonato: fale por você, professor), não há dificuldade alguma em perceber que em O doutor Jivago o pretenso valor da política é severamente atacado. A política jamais poderá tocar nas questões cruciais de nossa existência (a não ser para sujá-las com suas mãos pestilentas).
E quais seriam essas questões crucias da existência? Ainda não sabe? Ninguém te contou? Não descobriu ainda, ó efêmero? Posso falar do que é crucial para mim: a morte, o amor, a amizade, a doença, a velhice, a solidão. Ela (a política) será sempre algo negativo, algo diante do qual a melhor atitude é a de defesa (a política é por natureza intrusa, invasora, violenta).
Se me interesso pela política, interesso-me preocupado com o fato de que dela provém o mal (e já nem digo mais que é um mal necessário). A política captura muitas almas, e essas são almas perdidas (Pevel Pavlovitch Antipov, notável exemplo do romance). Almas auto-eleitas para a salvação, Iuri, Larissa, Tônia (sim, Tônia, por que não?), respiram, querem a paz, querem coisas miúdas, querem viver suas vidas (mas a política não deixa, a revolução não deixa, o socialismo não vê com bons olhos isso. Muito burguês, muito individual).
E Pasternak não precisa exaltar o indivíduo para negar a política, pois isso soaria abstrato. O que é exaltado é algo mais metafísico, ou místico talvez. É o indivíduo como ser da natureza, o ser natural do olhar contemplativo de Iuri sobre o espetáculo da vida.
Em O doutor Jivago, as questões crucias da vida são colocadas na acrópole, lugar natural delas. E claro, o amor está lá, pois lá no alto é onde ele sempre deve estar. E ao lado dele, a morte. Sim, a morte. E ela aparece em um dos momentos altos do romance. Refiro-me à tentativa um tanto charlatã de Iuri (por ele mesmo assim entendida) de acalmar o coração aflito de Ana Ivanovna. A mãe de Tônia, enferma, vê a morte entrar em seu quarto, puxar uma cadeira para a beira de sua cama, sentar-se, e sem dizer nada, apenas ficar encarando-a, contando não semanas e meses, mas atenta aos minutos, horas e dias.
- Quiseram que eu me confessasse .... A morte está aí ... A cada momento, ela pode ... quando a gente vai arrancar um dente, fica com medo, sente-se mal, prepara-se .... e agora não é um dente, sou eu toda inteira, é toda a minha vida ... zás! Jogada para fora, num arrancão de torquês ... e que é isso? Ninguém sabe nada .... estou com o coração apertado e sinto medo.Ana Ivanovna calou-se. Lágrimas escorriam-lhe pelas faces.
Vejo o desprezo da política no romance de Pasternak já na abertura fúnebre, chamando atenção para a morte. O valor insignificante (em termos positivos) da política está no breve preâmbulo da morte de Ivanovna, no retrato da violência, na descrição de burocratas que idolatram o homem abstrato e desprezam o homem concreto. Dor, sofrimento, desencontros trágicos da vida, amor, epílogo da existência (de Jivago), solidão, morte, tantas coisinhas burguesas, individuais demais, mas são justamente por essas coisinhas que o livro de Pasternak toca. É por seu cativante e lírico desprezo da política que sensibiliza (falo por mim, sim, caro Nonato, ok, me sensibiliza).
(O título desse post faz referência à figura pálida, talvez obscura, mas humanamente interessante, a abnegada terceira mulher de Jivago e mãe de suas filhas, Kapitolina e Klavdia, irmãs, pois, de Sacha, Macha e Tânia). Seu nome: Marina Chtchapova. Ela vê Jivago afundar-se em seu epílogo existencial, e esse coroamento lúgubre da jornada de Iuri é tocante. Afundado numa decadência terrível, Iuri pouca atenção dá a esses três seres. Nesse crepúsculo da vida, Jivago arrasta-se. No fim o indivíduo sempre é derrotado).
