13 março 2021

O passado que gostaríamos de apagar

É célebre o caso da alteração das fotos de Trotsky ao lado de Lenin,  modificadas para eliminar a existência incômoda de Trotsky. O stalinismo queria apagar da história o fato de que Trotsky exercera papel proeminente na revolução russa. 

Dia desses isso me veio à mente quando pensei numa história que ocorreu antes da pandemia. Foi mais ou menos o seguinte. Um velho queixoso me dizia (lá no Canhoto, claro), ah, professor, esse aí faz de conta que não me conhece (olhando para uma pobre criatura humana sentada num canto). E eu disse, sim, ora, ora, mas é assim a vida, meu bom velho. Ele não gosta de você. Fique tranquilo. Muitos devem não gostar de você, outros gostam, como eu. Você queria o que da vida? Amor e cafuné de todos os lados? Ele riu e disse, não é só isso, não. Claro que se fosse só isso eu não daria muita bola, mas fiquei sabendo que ele e a mulher dele mostram as fotos de casamento e eu não apareço. E eu era o padrinho, eu o ajudei muito. Isso me dói.

Caramba, fiquei perturbado com o sentimentalismo da inverossímil confissão (de confissões eu gosto e de relatos inverossímeis também, mas esse sentimentalismo às vezes desce mal). Olhei bem nos olhos do meu parceiro de mesa e disse, então esse cara, além de ingrato é um covarde, não consegue conviver com seu passado. Tenha piedade dele. Mas disse isso sem convicção, porque acho que todos temos uma relação difícil com o passado. Num momento importante lá atrás estava alguém com você que hoje você não gosta, ou (o que seria pior) hoje você não acha mais conveniente lembrar que ele estava lá por causa de outros vínculos. Você nem desgosta, apenas não quer criar desconfortos com o teu novo normal dos últimos 15, 10, 5 anos. O que fazer? Ainda bem que o velho sentiu que eu apenas estava sendo social com minhas palavras, ainda bem que ele sentiu que eu não estava sendo sincero. Eu apenas quis romper o desconfortável silêncio de seu olhar pesaroso.