Com o tempo muitas coisas mudam. A frase é simples, banal, mas importante (na verdade, é banal dita assim, e dita aqui, lugar em que tudo é banal, mas ela é profunda quando sentida em nosso peito, vivida como uma verdade que gera autoconhecimento). O que era valorizado se torna sem valor, o que era amado é esquecido. Desprezei Nietzsche por muito tempo, hoje é um dos filósofos que mais respeito e admiro. Com autores essas coisas acontecem, ok.
Mas também é fácil pensar que, com o tempo, você passou a gostar de uma pessoa que outrora você desprezava. Da mesma forma você pode pensar nas pessoas antes amadas, admiradas, respeitadas e hoje desprezadas. E talvez nem se trate de pessoas antes amadas, admiradas e respeitadas, mas de pessoas apenas admitidas em teu círculo de relações por preguiça e covardia de dizer “retire-se”. Há ainda o caso, sempre delicado, de pessoas que você tem de conviver por causa do compartilhamento dos mesmos espaços profissionais, condominiais e tais. O desprezo, nesse caso, tem de ser cheio de simulações e dissimulações (o que no fundo deixa tudo mais saboroso).
(Perceba que digo isso como se valesse para você e para mim, para você e para ele, para ela, para todos nós. Somos todos desprezíveis desprezadores. Não há melhor ou pior aqui. Se você é cristão, lembre-se: todos somos pecadores. Respire fundo e continue).
Já que você insiste, ó grande pastor.
Assim como precisamos de ar para sobreviver, precisamos desprezar os outros para viver. E como somos servidores de nossos próprios interesses, embora nem sempre bons servidores, precisamos exercitar a arte sutil do desprezo. Melhor seria a do esquecimento. Sim, do esquecimento, que sempre deve ser a meta do desprezador. Mas o esquecimento é o estágio de bem-aventurança e, como tal, não suscetível a artes e malandragens. (O desprezo inicialmente é, ou apenas pode ser, instintivo, com algumas reflexõeszinhas tem a chance de passar a ser arte).
Por isso, não devemos acreditar em diálogo, discussões, debates. Não só porque ninguém é afetado diretamente por argumentos (é sempre necessária uma inclinaçãozinha passional para acolhermos determinados pensamentos), mas também porque estaríamos nos afastando da arte de servir bem a nós mesmos, que é, como sabemos, uma das grandes metas da nossa vida.
Hahahah... Tá um pouco contraditório, mas é assim mesmo. A razão contra a razão.
(Se você achar que não tá legal, pense que Montaigne, Schopenhauer e Nietzsche disseram isso em outras palavras que melhora. Lembre-se da inclinaçãozinha passional)