11 janeiro 2021

Germinal

Boa sorte em Paris, meu caro Etienne. Permita-me chamá-lo “meu caro Etienne”, pois teu pai, o grande artista Émile, me falou tanto de você que sinto como se fossemos íntimos. É verdade que temos visões muito diferentes sobre o mundo, a vida, a existência, a política. Sim, Etienne, muito diferentes, radicalmente diferentes. Mas assim é a vida. Dissentimos. Há um abismo que nos separa, você com tua paixão pela igualdade, eu com minha paixão pela liberdade. Ademais, tudo tem um fim. Continuarei trabalhando na mina e você entoará brilhantes discursos na capital.

Fiquei comovido com os relatos que teu pai fez sobre tua sede de conhecimento, sobre você ter confessado a ele que se sentia ignorante no início da caminhada, quando tudo começou a germinar, e que ainda te persegue esse sentimento de incompreensão diante do universo (agora parece que, lamentavelmente, apenas às vezes esse sentimento te invade).

Acho que você deu importância exagerada a Suvarin. É claro que a pose dele tinha algum encanto, mas era anarquismo estoico maquinal, robótico. Ok, ok, o passado dele foi traumático, o amor, a perda, a morte, mas ele acalentava ideias ainda mais equivocadas que as tuas. Eu que entendo bem de anarquismo, vou te dizer: ele e o guru dele macularam o sagrado nome anarquismo (impossível perdoar um crime dessa natureza).

O que teu pai me contou sobre você daria um belo livro. Não se ressinta com aquela conversa na taberna de Rasseneur. Disse o que penso, o que sinto. Você tem alma, Etienne. Minha empatia artística não tem limites políticos e ideológicos, por isso digo de peito aberto: gosto de você, te admiro e aprendi muito contigo. Somos feitos da mesma matéria. Somos diferentes e somos idênticos. 

Obrigado, Etienne.