15 novembro 2020

O último dia

[O padre] sentou-se na minha frente com um sorriso benévolo; depois abanou a cabeça e levantou os olhos para o céu, isto é, para a abóbada da prisão.
Compreendi-o.
— Meu filho, está preparado? — disse-me ele. Respondi-lhe com voz fraca:
— Não estou preparado, mas estou pronto.
(Victor Hugo. O último dia de um condenado à morte)
Parece interessante o pensamento: não estar preparado para a morte, mas estar pronto para ela.

Daí o Gaspar interveio: “Uma viajada rápida na maionese, hein, professor. Se o cara tá preparado, ele tá pronto. Sabe, é muito papo, palavras, palavras ...E todo mundo vai morrer, professor, para com isso”. E eu: “pô, eu te ofereço um pouco de Victor Hugo e você me agradece assim? “Mas não é nada pessoal. Tá tranquilo”. “É tudo pessoal, velho... Bom, já que estamos aqui com copos, vire mais um e me ouça novamente. Vou repetir pra você. Antes, respire um pouco para sentir melhor as verdades da literatura”.

Até pensei em dizer pro Gaspar, “olha, Gaspar, se você não reverencia a literatura, o que até entendo e perdoo, seja respeitoso com o tema da morte. Quando falar ou ouvir algo sobre a morte, fale e ouça com a gravidade e reverência que o assunto exige. Não siga os maus exemplos do presidente". 

Mas logo pensei: trazer a figura deplorável do Bolsonaro para a mesa vai esquentar a Heineken. Deixei o velho em paz e fui beber num canto, eu, Victor Hugo e o tema da morte. Chamei o Montaigne também e fiquei lá cabisbaixo, mentalmente atormentado com a ideia de não estar preparado e nem pronto.

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