A ideia parece ser a seguinte. Se assumirmos uma ética consequencialista, a morte de Bolsonaro produziria provavelmente bons resultados. Sua morte poderia gerar a boa consequência de um maior número de vidas preservadas. Essa boa consequência se daria tanto porque ele deixaria de atrapalhar o combate à pandemia, como pela repercussão que a morte de um líder político que minimiza a doença teria no Brasil e no mundo. Há problemas aí, claro. Teoricamente poderíamos discutir as sutilezas do utilitarismo e se ele de fato subscreveria a conclusão de Schwartsman. Mas isso não me interessa aqui.
Não é desconforto intelectual o que sinto ao ler coisas como essas que o articulista da Folha escreveu. O que sinto mesmo é um desconforto moral. Ele diz no início que não é “nada pessoal”. É pessoal, sim, visto ser o desejo dele. (Já disse alhures e repito aqui: tudo é pessoal). Como não sou consequencialista, e não o sou simplesmente por causa de meus sentimentos morais, não por adesão filosófica a alguma outra doutrina rival, acho que Schwartsman cometeu o pecado de ser muito filósofo (o que significa, foi um mau filósofo). Interpreto o que ele escreveu como uma hybris da reflexão. Prefiro ficar com meus sentimentos mais primitivos de não desejar a morte de Bolsonaro. Se ele fosse um facínora, aí sim os meus sentimentos não teriam pudor em desejar sua morte. Mas ele não é um facínora. Na minha opinião, ele é um ser nefasto para o país, um ser profundamente equivocado e com uma visão moral do mundo limitada. Mas daí a merecer a morte há uma distância abissal.
Gostaria de dizer só mais uma coisinha. Não acho por si só censurável desejar e comemorar a morte de alguém. Eu comemorei a morte de Pinochet e de Fidel. Se vivesse na época do stalinismo, teria desejado com veemência a morte Stalin, assim como teria desejado a morte de Hitler se vivesse nos tempos do nazismo (daria pra desejar a morte dos dois por um período). Quando digo “se vivesse na época...”, sinto um frio na espinha pensando: e se eu tivesse uma visão moral do mundo diferente da que tenho hoje? Bah... Nossa... Saí de mim pensamento envenenado.
p.s.: a relação entre desejar algo e achar que esse algo tem relação com merecimento não é simples e direta, ok. Um ponto precisa ser observado, porém. Se quisermos cortar qualquer relação entre o domínio do desejo e do merecimento, teremos de conviver com a difícil ideia de que alguém possa ao mesmo tempo considerar que a pessoa X não merece morrer, mas desejar moralmente a sua morte. Acho que se algo é moralmente desejável (estamos pensando na morte de alguém como algo desejável), a ideia de que essa pessoa não merece morrer deveria afetar nossos desejos morais