12 agosto 2020

Humilhados

Como alguém humilha alguém? Como alguém se deixa humilhar por alguém? Como o que alguém me diz pode ter o efeito de me humilhar? Vamos admitir que, em termos gerais, todos os seres humanos são seres suscetíveis à humilhação e tentados a humilhar alguém. Não quero dizer que todos somos iguais moralmente, mas apenas que somos seres carentes e propensos ao mal. “Grande coisa”, disse o Pachequinho no Canhoto quando externei a ele essa preciosidade da filosofia.

Qual o diálogo (não o com o Pachequinho, mas o diálogo dentro da minha mente)? Me contaram que foi mais ou menos o seguinte:
- Você nunca será isso, você nunca terá isso, você é isso e aquilo e tal.
Ele quer ser amado, admirado, reconhecido? Quer que o seu interlocutor diga o quê? O interlocutor reage:
- Sim, o senhor tem razão. Nunca vou ser nada disso que o senhor é. O senhor é muito bom, o senhor é incrível. Eu sou uma nulidade. Ok? Tá bom assim? Tá bom pro senhor esse reconhecimento e concordância minha com sua declaração de superioridade?
- Hum, tá bom. Agora eu estou melhor, estou mais calmo. Você admite mesmo que eu sou melhor que você?
- Sim, sim, como não, o senhor é muito melhor.
- Você aceita mesmo que eu sou formidável e você não é nada, um Zé ninguém?
- Sim, sim, não sou ninguém, ou melhor, sou um Zé ninguém, o senhor é o bonzão.

Vocês não acham que desprezar certas pessoas já é oferecer muito a elas? Ui, tá magoadinho, professor? O Pachequinho pegou no meu pé.
Quando não conseguimos ser amados e reconhecidos pode acontecer de querermos apenas ferir aquele que sonega o bem que tanto carecemos.
O que humilha tem de conceder importância a quem ele quer humilhar. Se não ocorrer essa concessão, ele simplesmente desprezaria com silêncio, talvez com um desdém do olhar. Mas mesmo quem despreza acaba reconhecendo o outro. Se o outro não tem importância alguma, o outro nem existe para ele, é apenas um ser humano com sua dignidade moral absoluta, nada mais. Procurar afirmação diante de alguém que julgamos tão inferior assim é algo formidável .... típico de mamíferos humanos como nós (assumindo que não somos anjos). O cara se acha o bonzão e quer se afirmar diante do outro, mas se o outro é tão inferior, então ele sequer tem importância para tua afirmação.

Outra coisa que me vem à mente é a ferida que não cicatriza ou apenas a tremenda dificuldade que temos de aceitar que somos no fundo insuficientes. Como imaginar que palavras provavelmente verdadeiras que alguém joga no meu rosto cheguem com tanta crueldade? Bem, agora me ocorrem diversos pensamentos, mas não há mais tempo. O trem já está na estação. Ah, ainda dá para fazer um aceno. 

Eis o aceno. Talvez alguém pense que o comentário aqui tenha algo a ver com o que ocorreu em Valinhos no dia 31 de julho, em que um entregador do iFood foi humilhado por um morador de um condomínio. Aqui quis tocar num ponto apenas perifericamente relacionado com o de Valinhos. Confesso que foi o que aconteceu lá que me levou a pensar e escrever as linhas acima, mas quem quiser entender melhor o fato noticiado sobre o entregador do iFood deve procurar outras fontes. O que eu quis dizer aqui é apenas e justamente o que está escrito aqui.

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